domingo, 16 de abril de 2017

Materialismo e Ciência II - Materialismo Dialéctico


Marxismo e Ciência. II – Materialismo Dialéctico

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    Uma exposição detalhada sobre o materialismo dialéctico está fora dos propósitos deste blog. Limitamo-nos a indicar alguns aspectos relevantes do tema, como etapa prévia à compreensão do «materialismo histórico», a apresentar mais tarde e que constitui o cerne da metodologia científica do marxismo, com consequências na análise da economia e da política.
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I - Idealismo e Materialismo
    O aparecimento da espécie humana sobre a Terra teve consequências notáveis, pelo menos ao nível local. Uma delas é que, pela primeira vez num (neste nosso) insignificante planeta – e talvez só nele em todo o Universo –, um agregado altamente estruturado de matéria se tornava pensante e consciente. Interagia com outra matéria, colocava-a ao seu serviço, e replicava-se enormemente modificando o próprio planeta.
    Desde os primórdios da civilização que os seres humanos, conscientes da sua posição única entre os seres materiais, se colocaram a questão essencial da filosofia: a questão da primazia na relação do pensar com o ser, do espírito com a natureza. A questão assim formulada: que é o originário, o espírito ou a matéria?
    Conforme respondiam a esta pergunta, os filósofos, estudiosos das questões mais gerais da existência e do conhecimento, e seus seguidores (políticos, clero, cientistas, inclusive os homens comuns) dividiram-se em dois grandes grupos: os idealistas, defendem a primazia do espírito face à matéria; os materialistas, defendem a primazia da matéria face ao espírito.
  
Os idealistas agrupam-se fundamentalmente em duas grandes correntes:
   
    1) Os idealistas absolutos ou objectivos, como Platão, defendem que o mundo exterior que percebemos pelos sentidos não existe; só têm existência real as ideias, que se formam num mundo à parte, um mundo místico, onde permanece a alma humana mesmo antes de o homem nascer. O filósofo alemão do século XIX Georg Hegel também era um idealista absoluto, defendendo a existência daquilo que denominava por «a Ideia» (Ideia Absoluta) que supostamente ditaria ao homem iluminado por tal Ideia o que era correcto ou não nas leis da natureza e nas leis sociais. Georg Hegel era, naturalmente, um dos iluminados. É óbvio que quer o «mundo das ideias» ou a Ideia Absoluta de Hegel são sinónimos filosóficos de Deus.
    2) Os idealistas relativos ou subjectivos, de que um dos expoentes foi o bispo irlandês George Berkeley (séc. XVIII), defendem que não existem as coisas-em-si – isto é, os seres materiais fora do conhecimento humano. Para Berkeley e outros idealistas subjectivos -- como o filósofo e físico Ernst Mach (1838-1916), «pai» do chamado positivismo lógico ou pragmatismo americano -- só existem «complexos de sensações». Fora da mente humana os objectos não existem. O idealismo subjectivo sofre de duas graves consequências decorrentes do postulado de que «fora da mente humana [fora dos complexos ou combinações de sensações] os objectos não existem»: o solipsismo (se fora da mente os objectos não existem então o idealista subjectivo terá, para ser consequente, de admitir que está sozinho no mundo) e a não existência do Universo antes de surgirem os seres humanos. A resposta dos idealistas subjectivos para saírem destes embaraços é sumamente cómica: propuseram que desde a origem do tempo cada um dos idealistas subjectivos já existia «em potência» (ninguém sabe o que isto concretamente significa -- limbo divino? -- nem sequer os próprios idealistas subjectivos) e, ao existir em potência, determinou o Universo antes da existência real dos idealistas subjectivos, bem como a existência de quem não é idealista subjectivo!
   
Os materialistas dividem-se em três correntes:
   
    1) Os materialistas primitivos ou ingénuos correspondem à atitude do homem comum perante o mundo exterior. Tomam as sensações imediatas e/ou aquilo que é imediatamente percebido na natureza, pela essência dos objectos. Por exemplo, Aristóteles, ao postular que tudo no Universo era constituído por quatro elementos principais – ar, terra, fogo e água –, comportava-se como um materialista ingénuo. Um outro exemplo de materialismo ingénuo é a teoria do flogisto, aceite pelos físicos do século XVII e princípios do século XVIII para explicar a transmissão do calor. Postulava a existência de um fluido calorífico dentro dos corpos, como se fosse uma espécie de água quente a correr dentro dos corpos! Em certa medida, a hipótese do éter, postulado como meio de transmissão de ondas electromagnéticas por analogia com a propagação do som, era também materialista ingénua. Foi descartada no início do século XX uma vez confirmadas as teorias de Einstein.
    2) Os materialistas mecanicistas. Em consequência das grandes descobertas científicas dos séculos XII e XVIII (Copérnico, Newton, Galileu, Kepler, etc.) e a ascensão da burguesia como classe social progressista que procurava colocar as leis da natureza ao seu serviço, as teorias idealistas entraram em recuo. As descobertas científicas seguiam metodologias experimentais e de observação da natureza (já propostas por Roger Bacon no século XIII). Na medida em que se ia procurar à matéria a explicação das leis da natureza – abandonando postulações e pré-conceitos dos cérebros iluminados pela Ideia – a atitude dos cientistas passou a ser uma atitude materialista. Contudo, até finais do século XIX, os materialistas, cientistas ou não, permaneceram mecanicistas; isto é, consideravam o Universo como uma complexa construção mecânica perfeitamente determinística: planetas e estrelas tinham sido sempre os mesmos e com os mesmos movimentos; tinham sempre existido os mesmos seres vivos aparte umas poucas extinções (a explicação dos fósseis ainda não era clara); oceanos e continentes eram praticamente imutáveis, tendo-se estes formado como uma espécie de precipitado de um oceano primitivo (Werner, 1774); o corpo humano era um simples arranjo mecânico que funcionava como um relógio ou um autómato (Descartes, 1647; Descartes, aliás, não era propriamente materialista mas sim dualista [1]); Pierre Cabanis dizia em 1795 que «o cérebro segrega o pensamento como o fígado segrega a bílis»; etc.
    3) Os materialistas dialécticos. No final do século XIX e princípios do século XX várias descobertas científicas destronaram a concepção mecanicista, substituindo-a por uma concepção evolutiva, transformativa, do mundo material: a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin (e de outros); a evolução gradualista da Terra de James Hutton; a termodinâmica e as transformações de fases (sólida, líquida, gasosa) dos compostos químicos; a teoria da hereditariedade de Mendel; as teorias celulares dos seres vivos, etc. Karl Marx e Friedrich Engels foram pioneiros no desenvolvimento da concepção materialista dialéctica; Engels, particularmente, dedicou grande atenção e estudo das descobertas científicas do seu tempo. A concepção dialéctica do mundo natural veio a reforçar-se com a imensidão das descobertas científicas subsequentes: a teoria da tectónica das placas continentais de Wegener; a descoberta dos quanta (Max Planck) e da natureza probabilística do mundo microscópico (Max Born); a descoberta do ADN e da constituição celular; a descoberta das partículas fundamentais da matéria e da transmutação de elementos; a descoberta de uma forma particular de matéria, designada por anti-matéria; a descoberta do surgimento aleatório de pares matéria-antimatéria a partir do «vácuo», a rejeição, com base em resultados experimentais e teóricos, do modelo estacionário do Universo e a aceitação do modelo cosmológico dito do big-bang, etc.

II - Alguns esclarecimentos

    Circulam muitas falsas ideias sobre idealismo e materialismo. A definição precisa da questão primeira da filosofia está dada acima. Resume-se, no fundo, ao reconhecimento (materialismo) ou não (idealismo) de uma realidade objectiva, material, independente e fora do espírito humano que se reflecte no pensamento. Também são diferentes as posições idealistas e materialistas relativamente à segunda questão principal da filosofia, ligada à teoria do conhecimento: será possível conhecer as coisas-em-si, isto é a essência dos objectos do Universo, as leis que regem a natureza, incluindo o próprio espírito humano? Os idealistas respondem negativamente; só a «Ideia» (Deus) os pode conhecer (idealistas absolutos) ou só podemos conhecer «complexos de sensações» (idealistas subjectivos). Pelo contrário, para os materialistas o mundo é cognoscível. Os materialistas encaram as sensações, incluindo as que resultam da aplicação de instrumentos de medição, como originando reflexos na mente de «objectos» (seres inorgânicos ou orgânicos, corpúsculos, energia, campos, etc.) realmente existentes. Para os materialistas dialécticos, as sensações, a observação e a actividade prática de interacção com a natureza (incluindo a interacção com outros seres humanos) permitem chegar a verdades relativas sobre as «coisas-em-si» que ao longo da história são cada vez mais próximas de uma verdade absoluta (possivelmente nem sempre alcançável). A aquisição de conhecimento é, assim, encarada como um sistema evolutivo e progressivo que cada vez melhor descreve a realidade exterior ao pensamento humano e a própria formação do pensamento e da consciência.
  
Apresentamos de seguida alguns esclarecimentos que julgamos pertinentes:
  
    -- Na linguagem comum entende-se muitas vezes por idealista aquele que possui ou luta por um ideal. Trata-se aqui de idealismo no sentido moral; não no sentido da teoria do conhecimento. No sentido moral quer idealistas quer materialistas podem possuir e lutar por ideais. Muitas vezes, inclusive, lutam lado a lado pelos mesmos ideais. Por exemplo, nas guerrilhas cubana e nicaraguense combateram lado a lado, pelo mesmo ideal de justiça social, quer comunistas (materialistas) quer padres e frades católicos (idealistas). Inúmeros exemplos deste tipo ocorreram e ocorrem ao longo da História.
    -- Poder-se-ia julgar que o materialismo e o idealismo são correntes filosóficas unicamente ocidentais. Na verdade, as mesmas correntes filosóficas, as mesmas discussões entre materialistas e idealistas surgiram (e surgem) na Índia, na China e em outros lugares do mundo. São idiossincráticas da posição única da espécie humana.
    -- Na vida quotidiana a maior parte dos cidadãos vive alheada destas questões: são, esmagadoramente, materialistas ingénuos nas suas tarefas e preocupações materiais do dia-a-dia, reservando uma parcela de idealismo primitivo e tradicional sobre a vida além da morte e a necessidade de promessas à divindade em troca de um qualquer favor.
    -- Os que trabalham em ciência, particularmente nas ciências da natureza, são materialistas no seu trabalho. São, como dissemos no artigo anterior, espontaneamente materialistas. Note-se que, por vezes, o materialismo é designado de outras formas. É usual os físicos chamarem realismo ao materialismo. Einstein diz claramente: «A crença na existência de um mundo exterior, independente do sujeito que o descobre, é a base de todas as ciências da natureza» ([2]). Einstein admitia, contudo, um tipo muito ligeiro e subtil de deísmo que ele caracterizava como «sentimento religioso cósmico» que «não possui noção definida nem de Deus nem de Teologia». Uma posição a que outros cientistas e intelectuais aderem.
Note-se que a designação «realismo» não é rigorosa. O pensamento e a consciência humana também têm existência reais. A questão não reside na sua realidade, na sua existência, mas sim, como já dissemos, na sua primazia ou não face à matéria. Muitos físicos (mas não todos!) fogem a usar «materialismo» substituindo-o pelo termo menos rigoroso de «realismo», possivelmente por «vergonha» de alguma conotação política do termo materialismo.
    -- Houve e há quem procure um «casamento» entre materialismo e idealismo. São os chamados positivistas, cujo «pai» foi o filósofo francês Auguste Comte (expôs as suas concepções na obra «Sistema de Filosofia Positiva»). Como tal casamento é manifestamente impossível, na prática os positivistas oscilam entre um e outro, de forma intrincada e em muitas vezes sumamente cómica ([3]). O físico Ernst Mach, que mencionámos acima, também tinha devaneios positivistas. Em geral era um idealista subjectivo como Berkeley, quando dizia por exemplo (itálicos nossos): «As sensações não são os “símbolos dos objectos” [os reflexos mentais dos objectos]; antes o “objecto” é que é um símbolo mental referente a um complexo de sensações relativamente estável. Não são os objectos (os corpos), mas as cores, os sons, as pressões, os espaços, os tempos, (o que chamamos comummente de sensações), que constituem os verdadeiros elementos do universo». Mas, por vezes, escorregava para posições materialistas como nestas afirmações: «Não devemos filosofar a partir de nós próprios mas devemos recorrer à experiência», «O que observamos na natureza é impresso [...] sobre as nossas ideias, as quais [...] imitam os processos da natureza» e «A ligação profunda entre pensamento e experiência cria a moderna ciência da natureza. A experiência é que origina um pensamento.». Mach afirma aqui, embora de forma algo confusa, o que qualquer materialista defende: a matéria existe fora de nós; é a matéria que «imprime» as ideias, através do que se chama «experiência»; é a experiência que origina um pensamento. Isto é, como defendem os materialistas, a matéria é a fonte última do conhecimento; a observação da matéria, a experiência, a interacção com a matéria é o meio pelo qual o homem adquire conhecimento da natureza.
    -- Muitos positivistas (nomeadamente cientistas) são materialistas nas ciências da natureza e idealistas nas ciências sociais. Agem como se as sociedades humanas não fizessem parte da natureza!
    -- Muitos livros académicos nas ciências da natureza, particularmente na Física, adoptam abordagens positivistas, também qualificadas como «operacionalistas» e «empiricistas» (ver [4]). Pelo contrário, na Biologia e na Geologia são comuns as abordagens materialistas dialécticas.
    -- Existem também aqueles que se eximem a tomar uma posição entre idealismo e materialismo. Dizem-se agnósticos, termo inventado pelo biólogo do século XIX Thomas Huxley que defendia as posições do filósofo inglês do século XVIII David Hume cujo pensamento se sintetiza nesta frase: «realismo e idealismo são hipóteses igualmente prováveis». O agnóstico defende que não há maneira de saber se os nossos sentidos (directa ou indirectamente através de instrumentos) nos fornecem uma representação correcta dos objectos, logo nada podemos saber de verdadeiro sobre eles. Vale a pena ver como o materialista Engels refuta esta argumentação ([5]):
«Ora, esta linha de raciocínio parece sem dúvida difícil de refutar usando mera argumentação. Mas antes da argumentação existia a acção. Im Anfang war die Tat [no princípio estava a acção - Goethe]. E a acção humana resolveu esta dificuldade muito antes do engenho humano a ter inventado. A prova do pudim está em comê-lo. Desde o momento em que submetemos ao nosso próprio uso esses objectos, de acordo com as qualidades que percebemos neles, nós submetemos a um teste infalível a correcção ou não das nossas percepções sensoriais. Se essas percepções estiverem erradas, então a nossa avaliação do uso a que submetemos o objecto deverá também estar errada, e a nossa tentativa [nesse sentido] deverá falhar. Mas se formos bem sucedidos no cumprimento dos nossos objectivos, se descobrimos que o objecto efectivamente concorda com a nossa ideia dele, e efectivamente satisfaz aos propósitos que intentávamos para ele, então isso é uma prova positiva de que as nossas percepções dele e das sus qualidades, de facto concordam com a realidade fora de nós próprios.»
Frequentemente e na prática os agnósticos comportam-se como materialistas envergonhados.
    -- Note-se que o termo «matéria» foi e é sempre empregue no sentido de tudo que tem existência objectiva, exterior ao pensamento humano, que afecta directa ou indirectamente os órgãos dos sentidos, reflectindo-se por essa via no pensamento. Assim, são não só matéria os corpos materiais construídos à custa de átomos, mas também a energia, as partículas elementares com ou sem massa e todas as formas de radiação que é sempre mediada por partículas elementares manifestando-se em «campos» de «acção à distância». É também «matéria» todo o conjunto de partículas ditas de anti-matéria. A noção de matéria tem vindo constantemente a conhecer novos desenvolvimentos, com os avanços espectaculares da Física moderna. Quando o físico inglês Paul Davies (que subscreve teses idealistas na Mecânica Quântica) argumenta sobre o «mito da matéria» (no livro The Matter Myth: Dramatic Discoveries That Challenge Our Understanding of Physical Reality, [6]) restringe o entendimento de «matéria» à natureza corpuscular da matéria. Para Davies, energia, ondas, etc., não são matéria. Note-se que, no próprio título, cai já em contradição: de facto a «realidade física» de que fala não é outra coisa senão a materialidade física (já vimos que muitos físicos gostam de usar «realismo» em vez de «materialismo»).
    -- Em geral os poderes estatais reaccionários defendem posições idealistas; praticam abertamente o acorrentamento ideológico dos cidadãos a uma visão idealista do mundo (encorajamento por diversas formas da influência religiosa, incluindo apoios materiais, alcandoramento e elogio sistemático de intelectuais idealistas, menosprezo quando não perseguição aberta de intelectuais materialistas, tempo de antena concedido a videntes, cartomantes, etc.). A lógica é esta: um povo acorrentado a uma visão idealista do mundo é um povo que depende passivamente da opinião dos «iluminados», dos «espiritistas», que se habitua a alhear-se do mundo real, a ser conformado, a não exercer espírito crítico, a consumir o fútil, a ter como única perspectiva de vida a procura animal de prazer. É um povo alienado, e a alienação popular mais facilmente permite que os 1% do topo possam controlar os restantes 99%.
Pelo contrário, os poderes estatais progressistas -- limitamo-nos aqui à época actual, logo aos sistemas socialistas ou que rumam em direcção ao socialismo -- só podem sobreviver na medida em que exista um engajamento popular interessado nessa sobrevivência, dado faltarem os instrumentos de coerção económica usados pelo capitalismo (de que o primeiro se enuncia assim: «só trabalhas se eu te der trabalho e te portares bem»). É necessário que as massas populares olhem para o real e o saibam interpretar. E é necessário que haja quem faça a análise científica de como evolui o «real» e quais as suas perspectivas difundindo esse conhecimento e estimulando a discussão crítica entre as massas, proporcionando assim um amplo conhecimento e domínio da realidade objectiva. Uma análise científica da sociedade pressupõe uma análise materialista dialéctica.
    -- Apesar do que acabámos de dizer não se deve cair na visão simplista de que todos os idealistas são reaccionários e todos os materialistas são progressistas. Isso é absolutamente falso. Já vimos acima que existem imensos exemplos de idealistas progressistas, incluindo membros do clero. Também é possível indicar imensos exemplos de materialistas reaccionários. Na Revolução Francesa, o monarquista reaccionário Talleyrand, apesar de bispo, era materialista e ateu; mesmo o antigo seminarista Joseph Fouché, materialista e inicialmente ultra-revolucionário, não teve pejo em trair os revolucionários, acabando como chefe de polícia dos Bourbons restaurados e promovido a Duque de Otranto. Exemplos deste tipo encontram-se em todas as épocas. Inclusive entre cientistas. O eminente biólogo e materialista inglês Richard Dawkins, apesar das campanhas ardorosas em prol do materialismo e ateísmo, é apoiante do reaccionário partido Liberal.
    -- O materialista consequente é obviamente ateu. Muitos cientistas e outros intelectuais materialistas tiveram a coragem de enfrentar preconceitos sociais e declararem-se abertamente como ateus.
    -- Uma das melhores obras em defesa do ateísmo e do materialismo é o «Testamento» do padre francês Jean Meslier (1644-1729). Trata-se de uma obra notável, densa de argumentação lógica em defesa do ateísmo. Como o título indica, a obra só foi conhecida depois da morte do padre. Nela pede desculpa aos seus paroquianos por se ter visto obrigado a mentir-lhes. A obra é também percursora do materialismo moderno suplantando mesmo em alguns aspectos os mais avançados materialistas das Luzes, como Diderot, o barão D’Holbach e Helvetius. Infelizmente pouco conhecido -- não encontrámos a sua obra traduzida em português -- os próprios pioneiros do materialismo dialéctico, Marx e Engels, bem como Plekhanov, Lenine e outros, desconheciam-no ([7]).
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    No próximo artigo propomo-nos abordar os seguintes temas: a dialéctica e dois desafios ao materialismo dialéctico: um, sério, a Mecânica Quântica; outro, ridículo, o pós-modernismo.
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Notas
[1] Os dualistas, como René Descartes, defendem a existência de duas «substâncias» distintas: a matéria e o espírito (a alma humana). São de facto metafísicos e não materialistas. Descartes teve, contudo, um papel progressista, justamente destacado por marxistas (ver, p. ex., Georges Politzer, The Tri-centennial of the Discourse on Method, 2012 in http://marxistupdate.blogspot.pt/2012/01/descartes.html). Sobre Descartes disse D’Alembert: «Descartes pelo menos ousou mostrar aos bons espíritos como abalar o jugo dos escolásticos [medievais], da opinião, da autoridade, numa palavra, dos preconceitos e da barbárie. E, por esta revolta, cujos frutos nós agora colhemos, prestou um serviço talvez mais essencial à filosofia do que esta deve aos seus ilustres sucessores»

[2] A. Einstein “Ideas and Opinions”, Broadway Books; Reprint edition (June 6, 1995).

[3] Para além de Ernst Mach é possível apresentar muitos outros exemplos de cientistas ou intelectuais positivistas (de uma ou outra variante; há inúmeras e ricas em invenções de termos arrevesados!) oscilando entre posições materialistas e idealistas. Um exemplo notável é o do físico Hermann von Helmholtz (1821-1894) conhecido pelas suas importantes contribuições para a teoria da conservação da energia, a termodinâmica e as percepções sensoriais.
Disse ele no seu discurso de 1878 «Os Factos da Percepção» (versão inglesa disponível no MIA - Marxists Internet Archive, http://www.marxists.org/ ): «As nossas sensações são simplesmente os efeitos nos nossos órgãos de causas objectivas; a forma exacta como os próprios efeitos se manifestam depende principal e essencialmente do tipo de dispositivo que reage às causas objectivas» e «E todas as leis naturais afirmam que a partir de condições iniciais que são as mesmas vistas de qualquer modo específico, resultam consequências que são as mesmas segundo outro qualquer modo específico. [...] Se, por exemplo, alguma qualidade de cereja ao amadurecer forma um pigmento vermelho e ao mesmo tempo também açúcar, nós encontraremos uma cor vermelha e um concomitante sabor doce nas nossas sensações de cerejas dessa qualidade». Estas são afirmações claramente materialistas. Mas, mais à frente, Helmotz diz coisas espantosas como estas «Se chamarmos ao grupo completo de agregados de sensações [«complexos de sensações» de Mach, que influenciou von Helmotz] que pode ser potencialmente trazido à consciência durante um certo período de tempo, através de um grupo específico e limitado de volições, de presentabilia temporários, em contraste com o presente, isto é o agregado de sensações que é objecto doe uma consciência imediata – então o nosso indivíduo hipotético está limitado em qualquer momento a um círculo específico de presentabilia [...]» e, invocando os presentabilia, «Enquanto sonhamos  acreditamos que estamos  a executar algum movimento e então sonhamos mais e os resultados desse movimento ocorrem [...] Nestes casos parece ao sonhador que está a ver as consequências das suas acções e que as percepções do seu sonho são realizadas por meio de puros processos psíquicos. [...] Se tudo nos sonhos viesse a ocorrer em concordância definitiva com as leis da natureza não existiria qualquer distinção entre estar a dormir ou acordado, excepto que a pessoa que está acordada pode quebrar a série de impressões que está a sentir». Isto é, a famosa cereja a que se referia materialisticamente von Helmotz, tanto pode existir objectivamente, fora do pensamento, ou corresponder a presentabiliade um sujeito a dormir. E como é que Helmotz sabe que o sujeito a dormir não quebra «a série de impressões que está a sentir»? E acorda convencido que provou o sabor doce de uma cereja que ingeriu? Só que infelizmente e estranhamente ela não se encontra no estômago? Assim, von Helmotz, que começou o discurso como materialista, acaba a dizer que «Não vejo como um sistema mesmo do mais extremo idealismo subjectivista, mesmo um que trata a vida como um sonho, possa ser refutado»! Bom, no caso da cereja temos uma solução a propor: abra-se o estômago do indivíduo e veja-se se está lá a cereja.

[4] Sobre este assunto, ver: Erwin Marquit, Philosophy of Physics in General Physics Courses, originalmente publicado em “Dialectics of Motion in Discrete and Continuous Spaces”,  Science & Society, 42 (Winter, 1978–79), pp. 410–25. (Received 25 April 1997; accepted 28 February 1979). Descarregável de http://www.tc.umn.edu/~marqu002/philphys.htm .
Erwin Marquit, é um físico marxista e comunista (membro do PCEUA) que, depois de vencer várias perseguições académicas (e não só) é, actualmente Professor Emérito de Física da Universidade de Minnesota. Foi cofundador da Marxist Education Press e editor da revista de estudos marxistas Nature, Society, and Thought.
Neste artigo Marquit começa por referir que um seu colega dizia numa aula de filosofia que ele, físico, não usava filosofia. Esta é uma ilusão muito comum entre cientistas. Mas não em todos. Einstein, por exemplo, nas suas polémicas com Niels Bohr, sabia bem que defendia uma posição «realista» contra as posições «idealistas» de Bohr. Pior ainda é quando os livros académicos são portadores de uma determinada visão filosófica sem que os leitores se apercebam disso.
Marquit refere que nos EUA a posição mais difundida nos textos académicos é a do positivismo  de Mach, sob a capa de «operacionalismo». Menciona, por exemplo, que na introdução de um livro muito conhecido, Introductory Nuclear Physics, o autor, Halliday, faz afirmações como estas: «Na física nuclear, como em todos os ramos da ciência, é desejável um ponto de vista unificado. Um, que é aceite por alguns cientistas hoje em dia, mas de forma nenhuma por todos, é o positivismo lógico cujo pai fundador foi o físico austríaco Ernst Mach.»; «Um positivista, comprometido como está com o operacionalismo, não descortina forma de decidir se uma dada teoria ou hipótese representa ou não a “verdade absoluta” [de facto, nem os materialistas nem ninguém afirma isso; aqui Halliday exagera propositadamente usando “verdade absoluta” em vez de “realidade objectiva" fora das sensações]. Em resultado disso ele tende a descartar tal conceito. O seu objectivo é descrever de forma tão compacta quanto possível as percepções sensoriais que provêm (ou se pode fazer com que provenham) da experiência» (itálicos nossos).
O artigo desmonta as argumentações positivistas-operacionalistas-empiricistas, citando a propósito a crítica de um físico (Mario Bunge) de que apresentamos aqui um extracto: «Quando aplicado ao caso da intensidade do campo eléctrico E este dogma [operacionalista] sustenta que E só adquire um significado físico quando é prescrito um procedimento de medição dos valores de E. Mas isto é impossível; as medições só nos permitem um número finito de valores de uma função [...] Para além disso, o valor numérico de uma grandeza ou quantidade física é apenas um dos constituintes dela. Por exemplo, o conceito de campo eléctrico, falando matematicamente, é uma função e portanto tem três ingredientes: dois conjuntos (o domínio e contradomínio da função) e a correspondência precisa entre eles. Um conjunto de valores medidos é apenas uma amostra do contradomínio da função. [...] Logo, longe de atribuir significados, a medição pressupõe-os». Isto é, as próprias medições já são feitas tendo por base o que lhes dá significação: a realidade objectiva. No caso do exemplo, a existência de um campo eléctrico. Mas Mario Bunge enterra definitivamente o operacionalismo-positivismo quando a seguir diz: «Para além disso, há muitas maneiras de medir os valores de E. Portanto, se [como pretendem os operacionalistas] cada uma dessas maneiras fosse usada para determinar o conceito de intensidade de campo eléctrico, teríamos um número arbitrário de diferentes conceitos de campo eléctrico em vez do conceito único que faz parte da teoria de Maxwell». 

[5] F. Engels, «Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico», 1892. O texto citado faz parte da Introdução a esta obra, Introdução essa que não encontrámos traduzida em português (embora a restante obra o esteja). A versão integral em outras línguas está disponível no MIA.

[6] Pauls Davies «The Matter Myth: Dramatic Discoveries That Challenge Our Understanding of Physical Reality (com John Gribbin); Simon & Schuster; 1992.

[7] O anti-clericalista e anti-religioso Voltaire, que era também deísta, idealista e ideólogo da ala mais à direita da burguesia francesa, sempre pronta a todos os arranjos com monarcas e aristocratas, é o grande culpado do desconhecimento de Jean Meslier. Tendo ouvido falar de Meslier em 1735 só passados 27 anos voltou a debruçar-se sobre o «Testamento», comunicando a D’Alembert: «Estremeci de horror ao lê-lo!» -- esta fase diz tudo de Voltaire. Voltaire compôs então um «Extracto» de Meslier que editou na Holanda e onde distorce e minimiza o pensamento profundo do socialista utópico Jean Meslier. Meslier, para além da argumentação materialista em defesa do ateísmo submeteu a uma crítica mordaz o dualismo cartesiano, em particular a visão cartesiana dos animais como simples máquinas («Esta opinião é absolutamente condenável porque é falsa e ridícula […] tende declaradamente a abafar no coração dos homens todos os sentimentos de doçura e bondade que poderiam ter para com os animais»); opunha-se violentamente à divisão da sociedade em «estados» (classes sociais); caracterizava correctamente os meios de opressão usados pela aristocracia e pelo clero para oprimir o campesinato e os trabalhadores; condenava a guerra que só aproveitava aos reis e nobreza; defendia a instauração da comunidade dos bens, assente na abolição da propriedade privada da terra; incitava os cidadãos à revolução sublinhando várias vezes que a libertação do povo é obra do próprio povo: «Nada deveis esperar de quem quer que seja. A vossa salvação está nas vossas próprias mãos»; propunha a criação de organizações de luta e a união das forças à escala internacional: «Povos, uni-vos! Se sois inteligentes, uni-vos todos se tiverdes coragem para vos libertardes das vossas misérias comuns. [...] Espalhai por toda a parte, o mais habilmente possível, textos deste tipo [...]».
Sobre o pensamento fascinante de Jean Meslier recomendamos: Abram Déborine, «Jean Meslier (1664-1729)» in «Utopia e Utopistas Franceses do Séc. XVIII», Livros Horizonte (Colecção Dialéctica), 1980. O «Testamento» é descarregável do MIA (em inglês e francês).

Referências de Leitura
Para além das obras clássicas de Karl Marx e Friedrich Engels, em particular o «Anti-Dühring» e a «Dialéctica da Natureza» de Engels (ao ler estes livros deve-se ter em conta o estado das ciências da natureza na altura em que foram escritos), parecem-nos importantes, e mais ou menos por ordem de prioridade, s seguintes obras:
  
Georges Politzer, Princípios Elementares da Filosofia, Ed. Prelo, 1974.
Uma excelente e didáctica introdução às questões essenciais da filosofia e ao materialismo dialéctico. O livro baseia-se nas notas das aulas de Politzer na Universidade Operária de Paris. O filósofo comunista Georges Politzer foi fuzilado pelos nazis em 1942 pelo crime de ser comunista e patriota, depois de meses de tortura. Foi entregue aos nazis pelo governo fascista e colaboracionista da França, dito de Vichy. O livro pode ser descarregado gratuitamente a partir de http://www.dorl.pcp.pt/index.php/outros-textos-de-divulgacao-do-marxismo-leninismo/3222-politzer-os-princpios-elementares-da-filosofia.
História das Ideologias (4 tomos). Direcção de V. S. Pokrovski. Editorial Estampa, 1973.
Importante obra que descreve a evolução do pensamento humano face às grandes questões filosóficas, desde as sociedades esclavagistas até às primeiras sociedades socialistas. A abordagem materialista dialéctica confere à obra valor acrescido. De facto, ao invés dos tratados convencionais que não passam de enumerações descritivas de como certas figuras proeminentes «pensavam», a obra supre uma deficiência essencial desses tratados que não vão além da esfera do «pensamento»: esclarece quais as razões, condições e interesses materiais que levaram a que os homens pensassem como «pensaram».
V. I. Ulianov (Lenine) Materialismo e Empirio-Criticismo, 1908. Publicado em várias línguas, embora não o encontrássemos em português. Descarregável gratuitamente a partir do MIA.
Em 1908, no intervalo entre duas revoluções russas, Lenine, para grande desespero dos seus colaboradores mais próximos que não entendiam a perda de tempo com filosofices, gastou nove meses percorrendo as bibliotecas de Genebra e de Londres (aqui com a finalidade de obter conhecimento detalhado da moderna filosofia e dos recentes resultados científicos) compondo esta obra magistral, com mais de 200 referências, onde argumenta de forma lógica e consistente contra o idealismo e o positivismo de Ernst Mach e seus seguidores. A obra desempenhou um papel importante no combate ao desvio positivista do marxismo. Consideramos esta obra de Lenine de leitura imprescindível, se se quiser seguir essa grande verdade que o próprio Lenine seguia: não é possível uma prática correcta sem uma teoria correcta. (Embora uma teoria correcta, só por si não assegure uma prática correcta. Dispor de uma teoria correcta é, portanto, uma condição necessária mas não suficiente.)
Phil Gasper, Bookwatch: Marxism and Science, Issue 79 of International Socialism, July 1998.
Um artigo que sintetiza de forma excelente os aspectos essenciais do marximo, enquanto materialismo dialéctico e materialismo histórico, bem a crescente sofisticação da «categoria» matéria à luz dos sucessivos progressos das ciências naturais. O autor é Professor Emérito de Filosofia da Ciência numa Universidade da Califórnia. Descarregável a partir d http://www.marxists.org/history/etol/newspape/isj2/1998/isj2-079/gasper.htm
Paul Langevin, Pensamento e AcçãoSeara Nova, 1974.
Paul Langevin é um físico famoso (faleceu em 1946) pelos seus trabalhos em magnetismo, piezoelectricidade, sonar, movimento browniano (equação de Langevin). Organizador dos famosos congressos Solvay. Teve uma ligação amorosa com a sua colega Marie Curie.Marxista e comunista francês, a sua oposição militante  contra o fascismo valeu-lhe a prisão em 1930 e mais tarde a prisão domiciliária até 1944, decretada pelo governo colaboracionista de Vichy. No livro expõe as suas posições materialistas dialécticas em relação com o seu trabalho científico e militante.
Fundamentos de Filosofia Marxista-Leninista, Parte I – Materialismo Dialéctico (em espanhol). Academia das Ciências da União Soviética, Editorial Progresso, Moscovo.
Manual didáctico, de excelente qualidade, para centros de ensino superior.
John Haldane, Why I am a Materialist, Rationalist Annual, 1940
O autor é um biólogo famoso (faleecu em 1964) pelos seus trabalhos neo-darwnianos e na genética das populações. Marxista, foi membro durante alguns anos do partido comunista da Grã-Bretanha. Descarregável a partir de http://www.marxists.org/
Georges Plekhanov, O Materialismo Militantequestões fundamentais do marxismo.  Moraes, Lisboa,1976.
Um excelente trabalho de desmontagem do positivismo de Ernst Mach e consortes russos. Plekhanov, revolucionário russo, trabalhador administrativo e num instituto de metalurgia, escritor e auto-didacta, foi o fundador do embrião do partido social-democrata russo (1883). Foi introdutor do marxismo na Rússia e mentor inicial de Lenine.
Richard C. Vitzthum, Philosophical Materialismhttp://infidels.org/library/modern/richard_vitzthum/materialism.html
Este artigo parece ser uma súmula do livro do autor, Materialism: An Affirmative History and Definition (Buffalo, NY: Prometheus Books, 1995) que não lemos. O interese do artigo (e possivelmente do livro) reside na análise materialista da formação das ideias e da consciência, que o autor tece à luz das descobertas da neurociências.
António Damásio, O Sentimento de Si, Europa-América, 2000.
Neste livro o autor descreve essencialmente uma teoria fundamentada em recentes descobertas científicas da formação da consciência, assente em bases biológicas. Trata-se de uma teoria objectivamente e obviamente materialista e também (menos obviamente) dialéctica. Uma teoria que, a nosso ver, representa a machadada final no positivismo.
Roland Desné. Os Materialistas Franceses. De 1750 a 1800. Seara Nova, 1969.
Os pontos de vista dos principais materialistas franceses (em geral mecanicistas, mas alguns já com embrionárias ideias dialécticas) que tanta influência tiveram na Revolução Francesa, expostos de forma cuidada.
Georges Plekhanov, Ensaios sobre a história do materialismo : D'Holbach, Helvetius, Marx. Estampa (2.ª ed.), 1979.
Uma análise cuidada da evolução das posições dos materialistas franceses até ao materialismo dialéctico de Marx.
F. T. Arjipsev, A matéria como categoria filosófica, Editorial Estampa, 1973.
O desenvolvimento das concepções materialistas ao longo da História, não só no chamado mundo ocidental, bem como na Índia e na China. O título pode induzir em erro. O livro, infelizmente, não aborda a crescente sofisticação da «categoria» matéria à luz dos sucessivos progressos das ciências naturais.

Fonte: http://revolucaoedemocracia.blogspot.com.br/2014/06/marxismo-e-ciencia-ii-materialismo.html

Marxismo e Ciência I - Introdução

Marxismo e Ciência. I – Introdução

Atentemos no seguinte texto:
   
"O motivo do lucro, acrescentado à competição entre capitalistas, é o responsável por uma instabilidade na acumulação e utilização de capital que conduzem a depressões cada vez mais severas. A competição ilimitada conduz a um enorme desperdício de mão-de-obra e à mutilação da consciência social dos indivíduos [...]
Estou convencido que só há UMA maneira de eliminar estes graves males, nomeadamente o estabelecimento duma economia socialista acompanhada dum sistema educacional orientado para fins sociais. Numa economia desta espécie, os meios de produção são propriedade da própria sociedade e utilizados dum modo planificado. Uma economia planificada, que ajustasse a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho a fazer-se entre os que pudessem trabalhar e garantiria meios de vida a todos os homens, mulheres e crianças."

    Este texto não é de Marx, nem de Engels nem de qualquer outro marxista notório. É de Albert Einstein, cientista bem conhecido.
   Trata-se de um excerto do artigo que Einstein escreveu em 1949 com o título de «Mas Socialismo Porquê?» ([1]). E escreveu-o não para qualquer publicação professoral ou de «gente fina» mas para uma revista do movimento operário americano ([2]). Em 1949 vivia-se nos EUA em plena histeria anti-comunista do início da guerra fria, incendiada pelo senador Joseph McCarthy, criador do Comité de Actividades Anti-Americanas de combate à «subversão comunista». Einstein, porém, não teve dúvidas em defender o socialismo no citado artigo, terminando o artigo do seguinte modo:
   
«Nesta época de transição que é a nossa é do mais alto significado que sejam bem claros os objectivos e os problemas do socialismo. Como nas circunstâncias actuais a discussão livre e sem obstáculos destes problemas está sujeita a um tremendo tabu, considero a fundação desta revista um serviço público da maior importância.»
   
    Einstein, além de cientista, era cidadão de corpo inteiro, sem palas nos olhos limitadoras de atenção exclusiva à sua área de especialização. São dele as seguintes palavras dirigidas aos que trabalham em ciência ([3]):
   
«A preocupação com o homem e o seu destino deve ser sempre o principal interesse de todos os avanços da técnica. Nunca se esqueçam disto quando estiverem às voltas com os vossos diagramas e equações.»
   
    Einstein opôs-se à bomba atómica. Opôs-se também à sentença de Julius e Ethel Rosenberg, acusados de serem espiões ao serviço da URSS e como tal executados em Junho de 1953, sem qualquer evidência no caso de Ethel; como medida puramente aterrorizante pelo facto de serem comunistas; outros espiões posteriores de maior gabarito não foram executados. Na altura Einstein escreveu a favor do casal Rosenberg ao presidente Truman. Ainda na Alemanha, em 1919, Einstein teve a coragem de assinar um telegrama pedindo o indulto do dirigente comunista Eugen Leviné, líder da República Soviética Bávara, preso e mais tarde executado pelas tropas encabeçadas pelos futuros dirigentes nazis Rudolf Hess, Ernst Röhm e Heinrich Himmler enviadas pelos sociais-democratas alemães para massacrar as milícias operárias.
    Era Eintein marxista e comunista? É impossível dizer. Algumas frases do citado artigo (e de outros trabalhos) deixam supor que conhecia algo das teses marxistas, embora outras passagens evidenciem afastamento do marxismo ([5]). Na monografia [3] lê-se o seguinte: «O FBI tinha um ficheiro desde 1940 com cerca de 1.500 páginas sobre Einstein, considerado “elemento subversivo”, onde constava nomeadamente que “Einstein foi membro, patrocinador e simpatizante de 34 frentes comunistas entre 1937 e 1954”. O infame senador McCarthy considerava Einstein “inimigo da América”. Outros diziam simplesmente que Einstein era ingénuo em política. Não é essa a opinião de John Stachel, que editou uma colectânea com artigos de Einstein, onde, discordando da ideia de “ingenuidade”, elogia, pelo contrário, a habilidade de Einstein para meter a direito por entre “complicações inextricáveis até ao que considerava ser o cerne da questão”.»
*    *    *
    Depois de um período de expansão do socialismo, a implosão em 1989 da URSS e da «Europa de Leste», e a evidente deriva da China para o capitalismo, voltaram a colocar na ordem do dia, como no tempo de Einstein, «a discussão livre e sem obstáculos» do marxismo e do socialismo sujeita «a um tremendo tabu». Com esta diferença, porém: enquanto do pós-guerra até meados dos anos setenta o «tabu» era agressivamente imposto por um capitalismo em recuo, face a um socialismo triunfante, actualmente um capitalismo triunfante tem procurado inculcar a ideia de que o marxismo e o socialismo são ideias «ultrapassadas», moribundas ou mortas.
    Deu brado, em 1992, o livro do «cientista e economista político» Francis Fukuyama, intitulado «O Fim da História e o Último Homem» onde defende que o capitalismo seria o apogeu da evolução humana, o «Fim da História», indo perdurar eternamente, enquanto o marxismo estaria morto. Fukuyama foi contribuidor da «Doutrina Reagan» e é figura de proa do chamado «neoconservadorismo»... Designação, entre outras, de velhas doutrinas bolorentas, destinadas a justificar a exploração do homem pelo homem, servidas em novas embalagens com o lacinho de enfeite dado pelos prefixos «neo» ou «pós». Para voltar a enganar o incauto.
    A ideia de perenidade do capitalismo é, hoje em dia, sustentada sem contestação por praticamente todos os meios de comunicação social. Também é constantemente martelada a ideia de que o socialismo é uma utopia. Veja-se, por exemplo, o artigo do «filósofo político» da nossa praça, Pulido Valente, cheio de prosápia, que comentámos em [6].
    Perenidade do capitalismo, morte ou irrelevância do marxismo, são ideias que granjeiam, por enquanto, apoio em grande parte da população, incluindo trabalhadores, e que se alimentam em doses maciças nos erros e aberrações -- reais e imaginários -- cometidos em países socialistas. Apoiam-se, também, nas políticas de embuste da social-democracia, que tem conseguido ocultar de grandes massas de trabalhadores, em particular os de «colarinhos brancos», a consciência da natureza exploradora do capitalismo, difundindo a ideia de que já não existe proletariado e burguesia -- apenas uma homogénea classe média  que partilha interesses comuns e reivindicações comuns --, e de que é possível reformar o capitalismo neo-liberal e restabelecer, senão um «Estado Social», pelo menos um paradisíaco «Estado de Participação» ([7]). Causas e ideias que também têm alimentado desconcertos de muitos partidos de esquerda incluindo os comunistas.
*    *    *
    Está o marxismo morto? Se o marxismo fosse apenas uma mera doutrina, um mero conjunto de ideias brotadas dos cérebros de alguns «iluminados», provavelmente já estaria morto e enterrado. Como muitas outras doutrinas do passado. Mas o marxismo não é nada disso. O marxismo é uma metodologia científica de análise da realidade social, com vista à sua transformação progressista. O marxismo está para os estudos sociais como o darwinismo está para a biologia. Na realidade, a metodologia de análise marxista tem, como veremos, muitos pontos em comum com a metodologia darwinista.
    Sobre o marxismo pronunciou-se assim o médico e revolucionário Ernesto «Che» Guevara ([6]):
   
«[...] é preciso introduzir aqui um posicionamento geral diante de um dos elementos mais controvertidos do mundo moderno: o marxismo. Nossa posição quando nos perguntam se somos ou não marxistas é a mesma que teria um físico a quem perguntassem se é “newtoniano”, ou um biólogo indagado se é “pasteuriano”.
Existem verdades tão evidentes, tão incorporadas ao conhecimento dos povos, que já se tomou inútil discuti-las. Deve-se ser “marxista” com a mesma naturalidade com que se é “newtoniano” em física ou “pasteuriano” em biologia, considerando que, se novos factos determinam novos conceitos, nunca perderão sua parte de verdade os que já aconteceram. É o caso, por exemplo, da relatividade einsteiniana ou da teoria dos quanta de Max Planck com relação às descobertas de Newton; isso, contudo, absolutamente nada tira da grandeza do sábio inglês. Foi graças a Newton que a física pôde avançar até atingir os novos conceitos de espaço. O sábio inglês foi o degrau necessário para isso.
    Podem-se apontar em Marx, pensador e pesquisador das doutrinas sociais e do sistema capitalista que lhe coube viver, determinadas incorrecções. Nós, os latino-americanos, podemos, por exemplo, não concordar com sua interpretação de Bolívar ou com a análise que ele e Engels fizeram dos mexicanos, inclusive admitindo determinadas teorias das raças e nacionalidades hoje inadmissíveis. Mas os grandes homens, descobridores de verdades luminosas, vivem apesar de suas pequenas faltas, e estas servem apenas para nos demonstrar que são humanos, isto é, seres que podem incorrer em erros, mesmo com a clara consciência da grandeza atingida por esses gigantes do pensamento. É por isso que reconhecemos as verdades essenciais do marxismo como incorporadas ao acervo cultural e científico dos povos e o tomamos com a naturalidade que nos dá algo que já dispensa discussões. 
     Os avanços na ciência social e política, como em outros campos, pertencem a um longo processo histórico cujos elos se encadeiam, somam-se e se aperfeiçoam constantemente. Inicialmente havia uma matemática chinesa, árabe ou hindu; hoje a matemática não tem fronteiras. Em sua história, cabe um Pitágoras grego, um Galileu italiano, um Newton inglês, um Gauss alemão, um Lobatchevski russo, um Einstein, etc. Da mesma forma, no campo das ciências sociais, desde Demócrito até Marx, uma longa série de pensadores acrescentaram suas pesquisas originais e acumularam um corpo de experiências e de doutrinas.
    O mérito de Marx é que produz imediatamente na história do pensamento humano uma mudança qualitativa; interpreta a história, compreende sua dinâmica, prevê o futuro, mas, além de prevê-lo, e aí cessaria sua obrigação científica, expressa um conceito revolucionário: não basta interpretar a natureza, é preciso transformá-la. O homem deixa de ser escravo e se converte em arquitecto de seu próprio destino. Nesse momento, Marx converte-se em alvo obrigatório de todos aqueles que têm interesse especial em manter o velho, da mesma forma que ocorrera antes a Demócrito, cuja obra foi queimada pelo próprio Platão e seus discípulos, ideólogos da aristocracia esclavagista ateniense.»
   
    Marx e Engels, pela primeira vez, propuseram, aplicaram e testaram uma metodologia científica de análise dos fenómenos históricos e sociais: o materialismo dialéctico. Os que trabalham nas ciências naturais são, na sua área de trabalho, espontaneamente materialistas -- admitem a existência de uma realidade concreta fora do cérebro humano -- e dialécticos -- sabem que na natureza não há categorias fixas, imutáveis, mas, pelo contrário, tudo está em permanente modificação. Mas esta metodologia que é «instintiva» e passa despercebida nas ciências da natureza, de tal forma está enraizada na prática experimental -- os cientistas da natureza praticam o materialismo dialéctico geralmente sem o saberem e por vezes até negando que são materialistas --, está longe de ser evidente na análise dos fenómenos sociais. Ainda hoje em dia abundam os historiadores que encaram a história como um conjunto de decisões individuais, subjectivas, de personalidades eminentes. É a mesma atitude dos meios de comunicação que se limitam a apresentar notícias políticas como factos avulsos, sem qualquer determinação concreta e conexão objectiva. A história e a política são apresentadas como meros folhetins, como lutas constantes entre «bons» e «maus», sendo os «bons» sempre os mesmos, imutáveis e predestinados.
    Mas, para além da metodologia científica, as contribuições de Marx e Engels são muito mais vastas e imorredoiras, em particular na investigação e esclarecimento de como funciona o capitalismo. «O Capital» de Marx, baseado na metodologia do materialismo dialéctico, inclui uma série de resultados ainda hoje válidos: a teoria do valor; os ciclos de negócios e a tendência da queda da taxa de lucro; a concentração do capital (conforme se assinala em [9], no tempo de Marx as grandes firmas eram uma excepção, o que realça a previsão de Marx que na época parecia improvável); o crescimento do proletariado (conforme se exemplifica em [9] -- um de muitos exemplos possíveis --, em 1820 a percentagem daqueles que nos EUA eram trabalhadores independentes em quintas ou pequenos negócios era de 75%; em 1940 esta percentagem tinha caído para 21,6% e actualmente é menos de 10%); a conversão, no capitalismo, de tudo em mercadorias -- trabalho, natureza, saúde, ciência, arte, etc. -- na busca de lucro. O marxismo ensina a colocar as perguntas certas e a procurar as respostas certas, materialmente determinadas. Concordamos inteiramente com as seguintes afirmações de Michael Parenti em [9]: «Repetidamente descartada como uma “doutrina” obsoleta [10], o marxismo retém uma qualidade contemporânea, já que é menos um corpo de afirmações fixas e mais um método de olhar para além das aparências imediatas, de ver as qualidades internas e as forças que actuam na conformação das relações sociais e de muito da própria história. Conforme notou Marx: “Toda a ciência seria supérflua se as aparências externas e a essência das coisas coincidissem directamente”. De facto, talvez a razão pela qual muita da moderna ciência social parece supérflua é devida ao facto de que se limita a descrever as aparências externas.»
    Quer isto dizer que tudo que os marxistas dizem ou disseram está ou estava correcto? Claro que não. Marx e Engels, juntamente com Lénine, enganaram-se redondamente, por exemplo, quando supuseram que a construção do socialismo começaria pelos países desenvolvidos (Alemanha, França, Inglaterra, etc.). De facto, começou em países bem menos desenvolvidos (Rússia, China, Cuba, Vietname). Para além dos erros -- e nenhum progresso científico é isento de erros --, mesmo os resultados certos têm de ser vistos como verdades relativas, sempre em vias de ser complementadas à luz de novas observações e análises; tal como apontado acima no texto de Che Guevara, a propósito das contribuições de Newton e Max Planck, etc. Marx e Engels não podiam, obviamente, prever os desenvolvimentos posteriores do capitalismo. Coube a Lénine complementar os resultados de Marx e Engels por observações e análises do capitalismo na sua fase superior do imperialismo; a fase do tempo de Lénine. Lenine por sua vez já não assistiu à fase neocolonialista do actual imperialismo. A qualidade relativa da verdade científica, elo de uma cadeia de verdades relativas e provisórias em progressão para uma verdade mais abrangente, também se verifica nas ciências naturais. Einstein também não deixou de cometer alguns erros (por exemplo, quando defendeu a natureza determinística dos fenómenos quânticos) e algumas das suas verdades sabemos agora com segurança que eram relativas e sabemos caracterizar em que medida o eram (por exemplo, a questão da constante cosmológica).
*    *    *
    É a ciência de Marx ainda relevante? Sem qualquer dúvida. Segundo um estudo recente da prestigiada revista Nature ([11]) Karl Marx é o investigador mais influente de sempre, de acordo com um sistema de classificação de citações científicas desenvolvido recentemente por uma equipa de investigadores da Universidade  Bloomington de Indiana, EUA. O sistema dispõe actualmente de classificações de 35.000 investigadores. Marx aparece no topo da área de história, com uma classificação 22 vezes superior à média da área; surge também nos lugares cimeiros na área de economia, com uma classificação 11 vezes superior à média da área. Em comparação, na área de física surge Edward Witten (considerado um dos maiores físicos actuais) com uma classificação 13 vezes maior que a média da sua área. A posição de destaque de Karl Marx foi também divulgada pelo Smithsonian Institute ([12]).
*    *    *
    Em próximos artigos propomo-nos analisar o tema «Marxismo e Ciência». Note-se que, num sentido estrito, o título do tema é inapropriado. É como se disséssemos «Einsteinismo e Ciência». Usamo-lo por facilidade de referência e como concessão àqueles que ainda não sabem ou têm dúvidas de que marxismo «é» ciência.
   
Referências
[1] Albert Einstein, «Mas Socialismo Porquê?», Ed. Afrontamento (1974?).
[2] O artigo "Why Socialism?” foi artigo de abertura da “Monthly Review, an Independent Social Magazine” publicada em Nova Iorque.
[3] Peter D Smith, «Einstein». Editora Texto, 2011.
[4] Citado no livro: Isabel Loureiro, «A Revolução Alemã [1919-1923]», Editora da Universidade Estadual de São Paulo, 2005.
[5] Por exemplo, no trabalho [1] Einstein explica as formações socio-económicas em termos de lutas entre conquistadores e conquistados e não em termos de classes sociais caracterizadas pela sua posição face aos meios de produção. Mas não desconhece totalmente o papel das classes sociais. Noutras partes de [1] Einstein revela também concepções idealistas.
[8] Ernesto Che Guevara «Notas para o estudo da ideologia da Revolução Cubana», Outubro de 1960. In: Che Cuevara «Textos Revolucionários» (4.ª ed.), Global Editora, São Paulo, 2009.
[9] Michael Parenti, “Blackshirts & Reds”, City Light Books, 1997.
[10] O trabalho de Joel Ang, Karl Marx is the "Best Scientist of Them All" (http://www.marxist.com/karl-marx-bes-scientist-of-all.htm24/1/2014), expõe de forma pertinente o seguinte: «Há mesmo um portal web dedicado a pulverizar o cadáver do bárbaro barbudo: www.marxisdead.com. Este libelo incessante e implacável contra um homem que morreu há mais de um século é bastante peculiar, e suscita uma importante questão: se o indivíduo está morto e é irrelevante porque razão estão sempre a recordar-nos isso? Não nos recordam incessantemente a irrelevância de Franz Joseph Gall [criador da frenologia do século XVIII, que dizia que a forma do cérebro determinava o carácter, personalidade, etc.], Mikhail Bakunin [destacado anarquista], Martin Fleischmann [defensor da fusão nuclear a frio], e Stanley Pons [idem], pois não? Com escassas excepções as teorias deles desapareceram do discurso público e da pesquisa científica -- sem serem acompanhadas de uma torrente de ataques. A razão deste facto é evidente: as ideias deles foram sistematicamente destruídas pela marcha da ciência e da história».
[11] Richard van Noorden “Who is the best scientist of them all?”, Nature, 6 November 2013, http://www.nature.com/news/who-is-the-best-scientist-of-them-all-1.14108.
[12] Colin Schultz  “Karl Marx Is the World’s Most Influential Scholar. When compared on equal footing, Marx stands out above the crowd”, November 6, 2013http://www.smithsonianmag.com/smart-news/karl-marx-is-the-worlds-most-influential-scholar-180947581/#ixzz2sH6xRxoU


Fonte:  http://revolucaoedemocracia.blogspot.com.br/2014/05/marxismo-e-ciencia-i-introducao.html

sábado, 8 de abril de 2017

O Universo começou com um “grande rebote”?




O Cosmos talvez tenha surgido a partir de uma contração do espaço-tempo que existia anteriormente, gerando um “big Bang” que fez tudo começar de novo


O Universo começou com uma explosão ou um “rebote”- ou com algo totalmente diferente? A questão sobre as nossas origens é uma das mais árduas da física, com poucas respostas, muita especulação e fortes sentimentos. A teoria mais popular é a da Inflação, a noção de que o Cosmos explodiu em tamanho nas primeiras frações de segundo depois de seu nascimento de um estrondo - um “Big Bang”. Mas uma ideia menos famosa propõe que o nascimento do Universo não foi o começo — que uma versão anterior do espaço-tempo existia e se contraiu em um grande colapso, ou “big crunch”, depois se sacudiu e começou a se expandir no que conhecemos hoje. Agora, um novo estudo sugerindo uma mudança no cenário do “rebote” instigou aqueles que apoiam a teoria e inflamou os ânimos dos opositores desse “rival” — os quais já afirmam tê-lo refutado repetidamente, mas que teima em ressurgir.

A teoria da Inflação tem muitos admiradores porque a rápida expansão que ela propõe parece explicar inúmeras características do Universo, como o fato de ele aparentar ser relativamente plano (oposto de curvo, em grande escala) e uniforme em todas as direções (em todos os lados existem, de maneira geral, a mesma quantidade de coisas, de novo em grande escala). Ambas essas condições resultam de cenários nos quais regiões do espaço que acabaram longe umas das outras começaram próximas inicialmente. No entanto, versões mais recentes da teoria parecem sugerir — ou mesmo exigir — que a inflação tenha criado não só o nosso mas um conjunto infinito de universos, no qual todos os tipos de universo possíveis, com todos os conjuntos de leis físicas e características possíveis, foram formados. Alguns cientistas apreciam essa implicação porque ela poderia explicar porque nosso Universo particular, com suas condições aleatória e perfeitamente ajustadas para a vida, existe — se todo tipo de cosmo existe, não é de se estranhar que o nosso também esteja presente. Mas outros físicos consideram a ideia de múltiplos universos repulsiva, em parte porque se a teoria prevê que toda possibilidade acontecerá, não prevê exclusivamente um universo como o que temos. 

Teorias de “grande robote” também predizem um cosmos plano e uniforme, graças à efeitos de suavização no espaço que podem acontecer durante a contração. Mas o ponto de discórdia da ideia de rebote é, há muito tempo, a transição entre o encolhimento e a expansão, que parece exigir a odiada ideia de uma “singularidade” — um período onde o Universo era um ponto singular de densidade infinita — visto por muitos como uma proposta matematicamente sem significado e que indica que uma teoria que saiu dos trilhos. Agora, físicos dizem ter encontrado um modo de calcular o rebote sem encontrar quaisquer singularidades. “Nós descobrimos que poderíamos descrever a evolução quântica do Universo exatamente,” diz o coautor do estudo Neil Turok, diretor do Instituto Perimeter de Física Teórica, em Ontário. “Nós descobrimos que o Universo passa suavemente através da singularidade e sai pelo outro lado. Essa era nossa esperança, mas nós nunca conseguimos conquistas isso antes.” Ele e Steffen Gielen, do Imperial College London, publicaram seus cálculos na edição do mês de julho da revista científica Physical Review Letters


Um Cosmos Quântico 

A importante descoberta aconteceu graças à duas técnicas que os cientistas adotaram. Uma foi usar a recente e ainda não completa teoria da Cosmologia Quântica — uma mistura entre mecânica quântica e relatividade geral — no lugar da clássica Relatividade Geral para descrever o universo. A segunda foi assumir que, quando o Cosmos era jovem, a matéria se comportava como luz, no sentido de que as leis da física que a descreviam não dependiam de escala. Por exemplo, a luz age do mesmo jeito independentemente de comprimento de onda. A física da matéria, por outro lado, usualmente varia de menores para maiores escalas. “Nós sabemos que nos primeiros 50 000 anos, o Universo era essencialmente preenchido com radioatividade,” diz Anna Ijjas, física da Universidade de Princeton que não estava envolvida no estudo. “A matéria normal que nós vemos agora não era muito significante. Eu acho que um universo anterior sem escalas é muito sugerido pelas nossas medidas atuais.” 

Partindo dessas condições, Turok e Gielen descobriram que um universo em contração nunca teria se tornado uma singularidade — essencialmente, ele atravessaria, por um “túnel”, o ponto preocupante saltando de um estado logo antes dele para um estado logo depois dele. Embora isso soe como trapaça, é um fenômeno comprovado da Mecânica Quântica. Já que partículas não existem em estados absolutos, mas sim em possibilidades indeterminadas, existe uma pequena mas real chance de que elas possam atravessar por ‘“túnel” as barreiras físicas para alcançar locais aparentemente “fora dos limites” delas — o equivalente, em uma escala microscópica, de atravessar paredes. “A imprecisão do espaço-tempo e da matéria conspiram para tornar incerto onde o Universo está em um dado tempo,” explica Turok. “Isso permite ao Universo passar através da singularidade.” 

Outros proponentes da teoria do “grande rebote” dizem que o trabalho é um passo significativo. “Ao fazer essas duas premissas plausíveis, eles encontram um resultado muito interessante, o de que um ‘rebote’ pode acontecer,” diz o físico de Princeton Paul Steinhardt, um dos fundadores da teoria da Inflação e que, mais recentemente, se tornou um de seus maiores críticos. Ele não esteve envolvido no estudo de Turok e Gielen. “O trabalho mostra que, em princípio, uma singularidade pode ser evitada.” Steinhardt e Ijjas têm trabalhado em outro modo de demonstrar matematicamente a possibilidade de um “rebote”, através da introdução no Universo de um tipo especial de campo que faz a contração virar um tipo de expansão bem antes do espaço se tornar pequeno o suficiente para se tornar uma singularidade. A solução deles usa a relatividade geral clássica, em oposição à cosmologia quântica. “Significa que ‘rebotes’ clássicos e não singulares também são possíveis,” diz Steinhardt. Eles reportaram seu trabalho em um estudo publicado no dia 28 de junho no servidor arXiv.org. 

Ambos os estudos ainda são preliminares. Turok e Gielen conseguiram calcular o “rebote” apenas para o caso de um universo idealizado que é completamente regular e não possui as flutuações de densidade que levam à formação de estrelas e galáxias no cosmos real. “Os casos que podemos resolver de maneira exata são universos muito simples,” afirma Gielen. “A questão que sempre se tem é ‘Essa ideia ainda se sustentará se você for para algo mais complicado?’ É nisso que estamos trabalhando no momento.” 

Se o Universo ricocheteou uma vez, uma pergunta natural é se ele fará isso de novo. Mas nem todas as teorias de rebote sugerem que estejamos destinados a viver um ciclo infinito de contrações e expansões — por exemplo, mesmo que nosso Universo já tenha ricocheteado antes, não temos nenhuma indicação até agora de que ele esteja no caminho para outra contração. A cota de energia escura que, acredita-se, compõe a maior parte da massa total do Universo, parece estar afastando nosso Universo em um ritmo cada vez mais acelerado. O que o futuro nos reserva é uma questão muito aberta — tão aberta quanto o fato de como tudo começou. 


Sangue Ruim 

Muitos adeptos da inflação são céticos em relação a qualquer modelo de “rebote”, especialmente porque eles dizem que os proponentes disseram muitas vezes, no passado, que poderiam calcular o “rebote” sem singularidades, mas nunca o fizeram. “Não fico satisfeito com o fato de eles não admitirem que todos os seus estudos anteriores deveriam ser desconsiderados,” diz a física da Universidade de Santdford, Renata Kallosh, que calculou os erros em modelos de rebote propostos anteriormente. “Agora eles fazem uma nova afirmação, na qual eu não acredito.” Alan Guth, um pioneiro da inflação do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, concorda. “Eu continuo cético sobre se eles realmente alcançaram uma solução que exclua singularidades,” ele diz. “Eu gostaria de esperar e ver como isso se desenvolve. Se eles obtiverem sucesso no que afirmam que fizeram, eu concordo que seja muito importante — ainda que não seja o melhor modelo para a história do Universo.” 

Alguns pesquisadores adeptos da Inflação são mais clementes, no entanto. “Eu acho que essa é uma linha de pesquisa bastante intrigante,” diz Marc Kamionkowski, da Universidade Johns Hopkins. “O cenário do ‘rebote’, ainda que ainda não tenha sido desenvolvido no mesmo nível que a inflação, é promissor e seu desenvolvimento futuro é imperativo. Esse estudo fornece um resultado matemático a partir de um modelo supersimplificado,” acrescenta, se referindo ao universo idealizado com o qual os pesquisadores trabalharam. 

Kallosh e outros se opõem ao uso de Cosmologia Quântica para descrever um “rebote”, porque o Universo talvez fosse pequeno a níveis microscópicos nesse estágio. “Eles têm o colapso de um grande universo — porque um universo grande deveria ser diferente do que a relatividade geral diz?” Turok responde dizendo que qualquer teoria definitiva sobre o universo terá que incorporar Mecânica Quântica na Relatividade Geral, porque a teoria clássica por si só é conhecida por falhar em certos extremos. “A natureza é quântica,” ele afirma. “Nós sabemos que teorias clássicas não fazem nenhum sentido em um nível muito básico.” 

Turok e outros críticos do modelo da inflação têm seus próprios problemas com a teoria dominante. Eles afirmam que ela exige circunstâncias improváveis para ter começado (uma afirmação com a qual os proponentes discordam) e que ela não resolve o fantasma de uma singularidade no momento do “Big Bang” em si. Além disso, “a inflação leva a esse cenário assombroso de universos múltiplos,” diz Turok, “que por alguma razão estranha é surpreendentemente popular.” 

Ele sugere que o debate acalorado no campo e a pesquisa minuciosa de novas ideias ajudarão cientistas a, definitivamente, convergir para uma melhor teoria sobre nossas origens. “As pessoas possuem opiniões muito fortes,” afirma Turok. “Eu admito que tenho e que minhas ideias não são compartilhadas por 95% dos cosmólogos. Eu, na verdade, sou um crítico de todas essas teorias, incluindo as que eu inventei. Mas nós temos hoje observações espetaculares apontando para uma simplicidade incrível no Universo. Para mim, isso significa que todas as nossas teorias existentes são complicadas demais. As observações estão apontando para a simplicidade e é nosso trabalho criar uma teoria simples que, esperançosamente, as explique. 

Clara Moscowitz

Vida complexa pode ser muito mais antiga do que se pensava



Nova descoberta de fósseis de algas pode redefinir linha do tempo da evolução

Foi há cerca de 1,6 bilhões de anos que uma comunidade de formas de vida pequenas, de cor vermelha brilhante e semelhantes a plantas, movendo-se com leveza numa piscina rasa de água pré-histórica, ficou gravada em pedra para sempre. Ou pelo menos até uma equipe de pesquisadores suecos escavar seus restos fossilizados numa formação rochosa sedimentar na região central da Índia.

A pesquisa, publicada semana passada na revista PLoS Biology, sugere que essa coleção de antigos fósseis recém-analisados - embora desenterrados alguns anos atrás - provavelmente é de algas vermelhas. Se isso for comprovado, poderia significar que a vida complexa e pluricelular evoluiu muito antes do imaginado - e que a árvore da evolução da vida na Terra talvez precise de uma grande poda.

Os primeiros vestígios de vida na Terra provavelmente apareceram há cerca de 3,5 bilhões de anos, um bilhão de anos ou mais depois do nosso planeta se formar. Quando exatamente esses organismos simples e unicelulares - classificados como “procariontes” por não possuírem núcleo - evoluíram para formas pluricelulares e nucleadas, chamadas de “eucariontes”, é assunto de debate. Acredita-se que a alga, eucarionte, é uma das formas de vida complexa mais antigas. E levando-se em consideração que descobertas anteriores de fósseis dataram algas vermelhas em 1,2 bilhões de anos, o novo achado poderia redefinir a linha do tempo evolutiva em cerca de meio bilhão de anos.

A suposta alga vermelha foi encontrada embutida em camadas fossilizadas de cianobactérias, as quais se acredita amplamente serem as primeiras formas de vida produtoras de oxigênio a surgir e as precursoras de todas as algas e plantas. (Embora nem todas as algas sejam tidas como “plantas” pela classificação atual, são consideradas semelhantes às plantas pois utilizam a fotossíntese para produzir energia.) Dissolvendo as rochas ao redor com ácido acético - método comum usado na escavação de fósseis - os autores do novo estudo desenterraram o que parecem ser duas formas de alga vermelha: uma cepa tubular que se assemelha com um macarrão de piscina segmentado e uma variedade mais suculenta, composta de coleções de camadas múltiplas de células.

Os autores utilizaram uma técnica chamada microscopia tomográfica de raio-x baseada em síncroton para construir um modelo tridimensional dos fósseis, além de identificar estruturas celulares internas que os organismos provavelmente usaram para produzir energia. A datação radioativa foi utilizada para confirmar a idade dos fósseis. “Os novos fósseis proporcionaram evidências tangíveis de que a pluricelularidade avançada, ao menos em plantas, apareceu muito antes do que se pensava”, diz Stefan Bengtson, autor sênior do novo artigo e professor emérito paleozoologia no Museu Sueco de História Natural. “Eles sugerem que o período dos primeiros eucariontes talvez precise ser reavaliado drasticamente”.

Sem a presença de DNA - que não pode ser achado em amostras tão surpreendentemente antigas - é impossível confirmar que os novos fósseis realmente sejam antigas algas vermelhas. Bengtson admite isso, mas ele também acredita que as estruturas dos fósseis carregam fortes semelhantes com as de algas vermelhas.

Paul Strother, biólogo da Boston College que estuda a evolução de algas e plantas, e que não está envolvido na pesquisa, não está convencido. “Se isso for real… Elas continuam não mostrando nenhum tipo de diferenciação celular. Todas as células são basicamente as mesmas, e essas formas não representam pluricelularidade complexa”, ele diz.

O professor da cátedra Eau Claire de biologia na Universidade de Wisconsin, Wilson Taylor, que também não esteve envolvido no estudo, acha que mesmo que as novas amostras sejam realmente algas, a procura pela origem da vida complexa ainda tem um longo caminho a seguir. “Se uma alga vermelha realmente tivesse evoluído nesse período… Isso implica em um período anterior de evolução eucarionte de alguma duração”, ele diz. “Quanto tempo antes do horizonte de 1,6 bilhões de anos surgiram os eucariontes, com base naquela primeira ocorrência, ninguém pode imaginar”. Taylor explica que os eucariontes - os quais virtualmente compreendem toda vida não-microscópica na Terra - possivelmente surgiram quando um procarionte engoliu outro e encontrou algum benefício simbiótico que fez o relacionamento prosseguir. Porém, não se sabe quanto tempo foi preciso para que essa comunhão vital se tornasse importante no processo evolutivo.

Como Bengtson apontou, ao passo que algas vermelhas não são o precursor direto das plantas - essa honra pertence aos ancestrais das algas verdes - ambas descendem de um ancestral comum a todas as plantas que existem atualmente na Terra. Assumindo que as novas descobertas são verdadeiras, uma grande questão para os paleobotânicos é por que demorou mais um bilhão de anos para que organismos maiores e mais complexos florescessem.

Foi apenas entre 600 e 500 milhões de anos atrás que plantas e animais maiores começaram a evoluir. Algas submarinas, balançando entre cobertores de micróbios, gradualmente deram espaço para o que conhecemos como plantas. As plantas fizeram o seu caminho até a costa, moldando uma nova paisagem que viria a incluir fungos complexos e, eventualmente, animais terrestres.

Bengtson espera estudar mais as primeiras populações de algas a fim de identificar melhor onde e quando elas surgiram, e por que permaneceram no mar por tanto tempo. Embora os desdobramentos da evolução continuem, sem dúvida, a passar por transformações - alguns passando por mudanças de rota, outros sendo excluídos - os cientistas podem supor que estão se aproximando de uma linhagem precisa da vida na Terra; e que nossos co-habitantes fotossintéticos produtores de oxigênio, dos quais dependem nossas vidas, mancharam o planeta que chamamos de lar durante grande parte de sua existência.


Bret Stetka

ALGUMAS LIÇÕES A PARTIR DA CONJUNTURA ATUAL

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