sábado, 1 de julho de 2017

Trabalho, Crise Estrutural do Capital e Fetichismo social

"Beleza Americana", de Sam Mendes (EUA, 1999)


Por Giovanni Alves

É nos EUA do século XX, a sociedade do complexo industrial-militar, expressão mais desenvolvida da civilização do capital, que o drama da crise da família burguesa irá assumir sua dimensão típica. O filme “Beleza Americana” retrata com vigor dimensões da crise da família burguesa vinculada a crise estrutural do capital. Ao expor a presença exacerbada do fetichismo social no cotidiano da sociedade burguesa mais desenvolvida, o filme de Sam Mendes contribui para uma reflexão sobre o significado da crise estrutural no plano sócio-reprodutivo.

O filme “Beleza Americana” expõe com clareza a vigência da estética da mercadoria na sociedade burguesa complexa. A mercadoria torna-se imagem. Diz Guy Debord: “A forma última da reificação mercantil na sociedade contemporânea é precisamente a própria imagem.” É a partir da estética da mercadoria que iremos expor os personagens que representam a fenomenologia do fetichismo da mercadoria no filme “Beleza Americana”. 

Por exemplo, Carolyn Burham, a mulher de Lester, representa a fenomenologia do fetichismo da mercadoria. Ela aparece fascinada pelo fetiche. É o que sugere seu gosto pela American Beauty, um tipo de rosa vermelha, comum nos EUA. Carolyn as cultiva, com dedicação, em seu jardim. O fascinio de Carolyn pelas rosas vermelhas expressa seu fascínio pelo fetiche que aparece como imagem. A própria Carolyn em seu modo de ser, expõe a simetria do fetiche. Seu fascínio está menos na coisa em si do que em sua forma imagética. Ou seja, vale mais pelo que representa do que pelo que é. Carolyn vive o Mundo das Aparências.

Na sociedade do fetichismo da mercadoria, a aparência torna-se a forma de ser das relações sociais. Como a mercadoria é uma coisa exterior, ela se impõe pela sua aparência imediata. Na medida em que as relações humanas tornam-se relações coisificadas, elas se estruturam em função da imagem ou da forma da aparição social. Na verdade, a aparição social apenas expressa valores vigentes na ordem do capital. Na sociedade do fetiche permeada de múltiplas (e complexas) relações sociais, cada vez mais intensas, a imagem torna-se mercadoria e objeto de trabalho. A imagem constitui a sociabilidade, tornando-se objeto de trabalho para os profissionais que manipulam sonhos, desejos e fantasias. É o caso, por exemplo, dos trabalhadores assalariados dos serviços que prestam atendimento ao público.

Na medida em que a ânsia do capitalismo global é vender mercadorias, tendo em vista a necessidade de realizar mais-valia, a totalidade viva do trabalho está implicada com atividades de venda, utilizando para isso, a manipulação dos sonhos, desejos e fantasias dos clientes. Esta manipulação do mercado consumidor ocorre por meio de Imagens. Não apenas a mercadoria é uma Imagem, mas o próprio vendedor torna-se Imagem. Temos, nesse caso, o que denominamos alhures de proletário-mascate, o trabalhador assalariado envolvido na compra-e-venda de mercadorias. No mundo do capitalismo manipulatório, todos nós nos tornamos vendedores de Imagens ou nos tornamos Imagens, tendo em vista que a manipulação que impregna a vida social é permeada de Imagens. Ao viver a imagem, Carolyn confessa viver o fetiche. Na medida em que a imagem constitui a vida social, a vida social torna-se um simulacro, onde o que é significativo no trato humano é a forma de aparição social. Deste modo, as coisas se impõem aos homens.

A presença da Imagem no filme “Beleza Americana” é constatada, por exemplo, no serviço de fast food. Seu nome é Mr. Smile, sugerindo uma crítica sarcástica ao American way of labour. O mote de “Beleza Americana” poderia ser “Pareça Feliz!”, demonstrando a sociedade da hipocrisia vigente na ordem do capital. Mr. Smile é a Imagem da sociedade do capitalismo manipulatório, onde todos devem parecer felizes, mesmo que não o sejam. A sociedade da hipocrisia é a sociedade do adoecimento humano, pois todos devem parecer felizes mesmo que estejam sob pressão do fetichismo da produção, sendo obrigados a cumprir metas e alcançar resultados caso queiram preservar emprego e salários condizentes com o padrão de vida para o consumo. Na verdade, se não quisermos adoecer, temos que expressar e falar de nossos sentimentos e emoções que são escondidos e reprimidos e acabam por produzir doenças físicas ou mentais. Na medida em que o metabolismo social do capital corroí espaços de auto-expressão pessoal do homem-que-trabalha, ele contribui para situações de adoecimentos humano.

Eis o significado da precarização do homem-que-trabalha, a corrosão do equilibrio metabólico homem-Natureza, provocado, por um lado, pela pressão do fetiche da produção de capital e, por outro lado, pelo esvaziamento dos espaços de auto-expressão pessoal capazes de expor o sofrimento psiquico de homens e mulheres dilacerados pelo estranhamento e fetichismo da mercadoria. Deste modo, o estranhamento opera não apenas o mecanismo da redução do tempo de vida a tempo de trabalho, mas instaura também a vigência do esvaziamento dos espaços-tempo de auto-expressão pessoal das individualidades pessoais de classe. Por exemplo, Carolyn nunca chora, ela sempre tenta esconder suas lágrimas, para que seu rosto sempre mostre um sorriso, uma expressão de felicidade. Na verdade, trata-se de um auto-dominio estranhado, pois ela sofre com esta imposição fetichizada dos valores burgueses. Sofre, mas os aceita plenamente. Enfim, ela deve sempre parecer feliz, pois assim exige seu trabalho. O que demonstra a centralidade do trabalho na vida moderna tardia.



É interessante fazer uma análise critica do trabalho de Carolyn e Buddy: o trabalho dos Negócios Imobiliários. O trabalho de Carolyn e Buddy é o trabalho típico no capitalismo manipulatório, onde todos tendem a tornar-se “proletários-mascates”, isto é, vendedores de mercadorias e prestadores de serviços. Na medida em que a atividade de serviços organiza-se em torno da compra-e-venda de mercadorias, a sua lógica fetichizada permeia todas as relações humanas. Observem que a imagem de Buddy Kane é a marca do negócio.

A obsessão cotidiana de Carolyn em seu trabalho é vender uma mercadoria que ela não produziu. Para isso ela compromete sua subjetividade. Seu gesto torna-se parte de si. O trabalho de corretor de imóveis a obriga a lidar com pessoas humanas e a manipular desejos e afetos pessoais dos clientes, buscando realizar seu objetivo: a venda do imóvel. 
No seu trabalho de corretagem imobiliária, Carolyn trata com os mais diversos tipos de clientes buscando vender o imóvel.

Ao expor o trabalho da corretagem de imóveis, o filme “Beleza Americana”, retrata o começo da bolha imobiliária que iria estourar em 2008, provocando uma das maiores crises financeiras do capitalismo global. Aliás, o filme de Sam Mendes é um filme visionário, pois contém elementos cruciais da nova dinâmica do capitalismo imperial dos EUA que iriam estourar na década de 2000. Por exemplo, como salientamos acima, quando Frank Fitts, lendo o jornal no breakfast, exclama “Este país está indo direto para o Inferno”, ele prenuncia a ascensão da nova direita republicana, responsável pela invasão do Iraque e ocupação do Afeganistão, legitimado pelo pretexto do ataque terrorista em 11 de setembro de 2001 ao World Trade Center; e a presença do trabalho de Negócios Imobiliários no filme expõe na segunda metade da década de 1990, a ascensão da bolha imobiliária nos EUA que iria estourar em 2008 com a crise hipotecária da subprime.

Por outro lado, seria interessante a análise crítica do trabalho de Lester: o trabalho na Agência de publicidade. Este detalhe do roteiro do filme “Beleza Americaca” também representa uma tendência marcante da nova dinâmica do capitalismo global baseado do trabalho dos infoproletários. Lester era um infoproletário. O trabalho de Lester no telemarketing da revista Midia Mensal, utiliza a Imagem como matéria-prima, demonstrando que tanto Carolyn quanto ele estão imersos no mundo do fetichismo onde a Imagem como mercadoria é seu nexo estrutural. O trabalho de Lester é o trabalho dos Negócios Virtuais. A atividade cotidiana de Lester implica um processo de trabalho onde ele utiliza atendimento virtual. Ele passa o dia tratando com pessoas virtuais, tão abstratas quanto a sua vida estranhada. De fato, o trabalho de Lester é tão estranhado quanto a sua vida pessoal – e vice-versa. Poderíamos perguntar: “Lester existe?”. Um detalhe curioso: em sua baia no local de trabalho, existe um pequeno cartaz com o mote publicitário do filme “Beleza America” – “Look closer”, que significa “Olhe bem de perto”.

O fetichismo social que caracteriza o capitalismo global tende a promover deformações na auto-percepção pessoal. Vejamos o caso, por exemplo, de Jane e a (Auto)-Imagem. O sonho dela é aumentar os seios, buscando possuir uma (auto)-imagem de acordo com o padrão vigente de beleza da mulher na sociedade do capital. Na verdade, é sintoma de sua baixa auto-estima e de uma insegurança típica da adolescência nas condições do capitalismo flexivel. Mas seriam os seios de Jane tão pequenos? Estamos diante de uma (auto)-imagem estranhada e falsa, sintoma de incapacidade da auto-referência pessoal na sociedade do fetiche. O que é perceptível é apenas a imagem da mercadoria e suas imposições sistêmicas. Outro exemplo de perda de auto-referência pessoal e de sentido de realidade, devido a sua imersão total no sistema de estranhamento, é a mãe de Rick, que, diante de Jane, se desculpa pela bagunça da casa. O que observamos a seguir é que a casa está totalmente arrumada. Percebe-se, deste modo, que o fetichismo social, como modo intransparente do estranhamento na sociedade complexa do capital, tende a alterar o sentido de realidade.

De certo modo, podemos considerar a perda de auto-referencia pessoal um mecanismo de defesa do ego, sintoma de reação psiquica à deformação da personalidade provocada pelo processo de estranhamento social. Na verdade, a sociedade do fetiche oblitera relações sociais humanas que permitem a auto-percepção pessoal autêntica que ocorre por meio da relação social humana com o Outro-como-Próximo. Na medida em que se corrói espaços de auto-expressão pessoal onde pode-se desenvolver relações sociais humanas com o Outro-como-Próximo obstaculiza-se o processo equilibrado de formação do ego humano.

Nos “Manuscritos de Paris”, de 1844, Karl Marx tratou o estranhamento humano decorrente do trabalho capitalista como sendo um processo de desefetivação humano-genérico caracterizado pela perda do sentido de realidade (eis o significado do termo “desefetivado” em alemão – Entwirklicht, que significa literalmente “privado de realidade e/ou de efetividade”). Para Marx, no capitalismo o trabalhador é desfetivado, isto é, “privado de realidade”, o que explica as deformações de auto-referencia pessoal que corroem a capacidade humana de percepção do sentido de realidade efetiva (esta desefetivação humano-genérica é provocada tanto pelas deformações psiquicas de personalidade humanas singulares, como pelo uso de drogas dos mais diversos tipos). O estranhamento humano pela perda do sentido de realidade possui uma função sistêmica de reprodução social da ordem burguesa perversa. Uma pessoa humana privada de realidade é incapaz de dar resposta radical às imposições da ordem burguesa. Oblitera-se a capacidade humana de fazer história. Por isso, sob o capitalismo manipulatório, a alienação por meio de perda de realidade e/ou efetividade é uma das formas cruciais de estranhamento humano.

Na sociedade do capital, o próprio corpo torna-se uma imagem a ser consumida. O culto do corpo torna-se expressão deste corpo como imagem na sociedade das mercadorias. É o que explica o desejo de Jane em aumentar os seios e a obsessão de Lester em recuperar a forma física para seduzir Angêla. O mesmo acontece com o sexo, que torna-se mais uma Imagem. Por exemplo, ao transar com Buddy Kane, Carolyn está transando com uma Imagem, com aquilo que ele parece ser - o “Rei dos Imóveis” (por exemplo, a disseminação do sexo virtual deriva da conjunção das tecnologias informacionais de comunicação com a vigência do corpo como imagem).

O filme “Beleza Americana” expõe também a fenomenologia social da era da corpolatria. Corpolatria é uma espécie de “patologia da modernidade burguesa” caracterizada pela preocupação e cuidado extremos com o próprio corpo não exatamente no sentido da saúde (ou presumida falta dela, como no caso da hipocondria), mas particularmente no sentido narcisístico de sua aparência ou embelezamento físico. Para o corpólatra, a própria imagem refletida no espelho se torna obsedante, incapaz de satisfazer-se com ela, sempre achando que pode e deve aperfeiçoá-la. Sendo assim, a corpolatria se manifesta como exagero no recurso às cirurgias plásticas, gastos excessivos com roupas e tratamentos estéticos, abuso do fisiculturismo (musculação, uso de anabolizantes, etc). É corpolatria é sintoma social da perda de sentido de realidade e/ou de efetividade humano-genérica. Por outro lado, a corpolatria, como fenômeno psico-social, aparentemente está relacionada com as mudanças no campo do trabalho produtivo ocorridas no final do século XX, a saber, desde que a distinção entre produção e reprodução social perdeu nitidez, confundindo-se assim, tempo de vida com tempo de trabalho. Desde então, em muitas profissões e ocupações, a aparência corporal e o vigor físico passaram a ser uma espécie de segunda força produtiva ao lado da força de trabalho propriamente dita, com o tempo livre tendendo a se tornar um segundo turno do trabalho produtivo. O corpo tornou-se Imagem, Imagem-como-mercadoria inserida no processo de compra-e-venda, isto é, processo de realização do capital.



Na medida em que trabalho vivo reduziu-se a força de trabalho, o corporalidade viva do homem-que-trabalha, sua força de trabalho vital, adquiriu proeminencia no processo de metabolismo entre o homem e a Natureza. Entretanto, a corporalidade viva (corpo e mente) reduziu-se a sua dimensão instrumental adequada à reprodução sistêmica da ordem burguesa. Surgiu tanto o fetichismo do corpo – a corpolatria, quanto o fetichismo da mente – que vai das filosofias de Auto-Ajuda às filosofias da Nova Era (New Age) que proliferam sob o capitalismo global. 

A Imagem como mercadoria na sociedade capitalista, significa que ela – a Imagem – tende a permear as múltiplas relações sociais, constituindo sua formas de (auto)representação pessoal. Em “Beleza Americana”, o mundo social é um mundo de Imagens. Por exemplo, a presença de Imagens (no caso, como fotografias) é uma dado constante, expressando sua presença constitutiva na vida social. As fotografias servem como forma referente do passado. Deste modo, a sociedade capitalista está imersa num dilúvio de Imagens. Muitas delas sem significado referente com o passado ou com o presente. Expressam apenas valores fetichiazados. O detalhe do quarto de Angela é a própria expressão deste caos de Imagens-simulacros que preenchem a modernidade tardia do capital.

Outro personagem do filme que representa a fenomenologia do fetichismo da mercadoria é a Angela Hayes. A jovem Angela Hayes é uma menina insegura que passa todo o tempo encenando comportamentos calculados para fugir da trivialidade. Esta imersa no mundo do fetichismo, incorporando as factualidades da mercadoria. Ela busca o sucesso a qualquer preço. Talvez Angela Hayes seja a representação adolescente de Carolyn, buscando o sucesso através da incorporação ativa dos valores-fetiches da ordem burguesa.

O filme “Beleza Americana” expõe situações de farsa e de tragédia. São situações intrínsecas à estrutura do cotidiano burguês e das narrativas de “alienação” no capitalismo tardio. Os personagens, em si e por si, não conseguem ir além da estrutura crítica de sociabilidade instaurada pela reprodução sistêmica do capital. Por exemplo, como personagem representativo da Farsa temos o corretor imobiliário Buddy Kane. Diz ele: “Para se ter sucesso é necessário manter uma aparência de sucesso a qualquer custo.” Buddy Kane, o “Rei dos Imóveis”, especulador de sucesso no mercado imobiliário, é a representação plena da personalidade-simulacro que permeia o mundo do capital. A aparência é tudo. O sucesso decorre desta forma ficticia de ser. Inclusive, é uma forma de personalidade homologa à dinâmica predominante do capital financeiro, baseado na valorização exacerbada do capital fictício. Carolyn torna-se uma fiel discipula de Buddy Kane. Ela aparece como a típica personalidade estranhada, imersa na sua introversão, em seus valores-fetichizados de sucesso. Na verdade, o que vale é o que sei e o que sinto, não o que é de fato. 

No mundo social de “Beleza America” torna-se visível o vínculo entre fetiche e agressividade. Diante da fluidez e da precariedade das expectativas da sociedade da financeirização e do capital ficticio, a frustração e o stress tendem a tornar-se uma ameaça constante. Para combater o stress, a personalidade-simulacro busca o exercicio da agressividade simulada. Mais uma vez, o que existe é mera simulação – agora, de agressividade. A simulação de agressividade no Clube de Tiro é parte deste ritual do simulacro que permeia a sociabilidade da sociedade do capital. Serve como válvula de escape para o stress cotidiano. É uma “droga” que alimenta a perda de sentido de realidade, pois apesar de estarem imersos (e impotentes) diante da contingência e do acaso do mercado, consideram-se (ou se sentem) poderosos. Um detalhe curioso é a imagem da arma ao lado do cassete de auto-ajuda. Esta imagem de “Beleza Americana” é significativa. Expressa a afinidade eletiva entre Agressividade e Auto-Ajuda. São duas formas de ser de personalidades-simulacros, estranhadas e imersas em sua introversão abstrata.

Ao lado da farsa, convive-se com a tragédia. O desenvolvimento complexo do fetichismo da mercadoria tende a constituir o metabolismo social do capital como sistema. O que significa que mesmo os personagens problemáticos tendem a terem dificuldades, no plano subjetivo, de ir além do fetiche. Na verdade, eles estão imersos na contingência. Eis a forma que assume a tragédia. 
Como personagens que representam a tragédia, temos Lester/Rick/Jane. No filme “Beleza Americana”, Rick, tal como Lester, é um personagem problemático, que enfrenta uma situação de estranhamento: a opressão paterna. Buscando sobreviver, desenvolveu um agudo senso de pragmatismo condescendente (certa vez afirmou: “Gosto de todo tipo de música”). Além disso, diante do sistema do fetiche, adota uma atitude contemplativa, cultivando uma estética da coisificação. Rick não se indigna com as desgraças do mundo, mas adota uma introversão escapista.

A relação de Ricky com o pai - e, portanto, com o mundo - é ambígua. Na verdade, Rick não consegue odiar o pai. Não o considera mal, mas apenas triste. Ou seja, apesar de expressar tanto poder (e força) diante dele e da mãe, o pai de Ricky é um impotente. É curioso que Rick pede a mãe para tomar conta do pai, apesar dela ser a própria personificação da impotência e da incapacidade pessoal. O que Ricky tem de excesso em sua família – autoridade, disciplina e estrutura, Jane tem de falta. Eles representam extremos perversos de uma forma de sociabilidae sem o justo-termo – a sociabilidade do capital.

Existe uma estética do fetichismo social no filme “Beleza Americana”. É através da câmera de vídeo que Rick expõe os fragmentos coisificados do mundo do capital. Ele busca, através da contemplação destes fragmentos à deriva, um sentido de vida. É o que ele considera a “beleza do mundo”: um pássaro morto, um mendigo morrendo de frio, um saco plástico ao vento… Através de sua câmera de video, Rick retrata inclusive, a vida trágico-catatônica da mãe.

Rick busca através da contemplação do próprio fetiche um sentido para a vida. Busca a vida “por trás das coisas”, como ele diz. Na verdade, Rick sugere uma estética do fetichismo, ou a estetização do fragmento, uma atitude típica do pensamento pós-modernista. Talvez, a atitude estética de Rick seja tão-somente expressão de uma renúncia à transcendência do estranhamento e do fetichismo da mercadoria. É uma forma de introversão conformista e escapista. No plano ético, Rick evita confrontar a ordem burguesa. Procura apenas adaptar-se, a seu modo, à sociabilidade fetichizada. Deste modo, diante do pai opressor, ele foge (com Jane) e busca um lugar ao sol.

Mas, a tragédia que transparece no filme “Beleza Americana” possui um claro sentido de ironia. Ironia é uma figura linguistica com que se diz o contrário do que as palavras significam. Por exemplo, não é ironia acreditar que a beleza se encontra nas situações de bárbarie? Certa vez Lester disse: “É difícil ficar zangado quando há tanta beleza no mundo”. Mas, perguntamos: De onde provém a sensação de ironia que transparece no filme “Beleza Americana”? 

Podemos dizer que a ironia é o modo de expressão estético-discursiva das contradições dilacerantes do sistema sócio-metabólico do capital sob as condições de sua crise estrutural. Muitas vezes, a tragédia cotidiana tende a aparecer como ironia do destino. Por exemplo, no “Manifesto Comunista” a ideia de crise do capitalismo como expressão de ironia está presente nesta passagem de Marx e Engels: “As relações burguesas de produção e de troca, o regime burguês de propriedade, a sociedade burguesa moderna, que fez surgir gigantescos meios de produção e de troca, assemelha-se ao feiticeiro que já não pode controlar as forças internas que pôs em movimento com suas palavras mágicas”. 

Um detalhe: é interessante salientar que a figura do feiticeiro que não pode controlar as forças internas que pôs em movimento com suas palavras mágicas nos remete, por exemplo, ao desenho animado "Fantasia", longa-metragem dos estúdios Walt Disney, onde Mickey interpreta o aprendiz atrapalhado. O episodio “Aprendiz de Feiticeiro”, é baseado em poema de Goethe que inspirou o francês Paul Dukas a compor sua sinfonia homônima, conta a história de um incauto aluno das artes mágicas que, aproveitando a ausência do mestre, resolve aplicar um feitiço às escondidas. Faz com que uma vassoura crie pernas e braços, pegue um balde e vá buscar água no rio. Tudo corre bem até que o aprendiz percebe que não sabe as palavras mágicas para fazer com que a vassoura pare. A cada momento, mais água ela traz para casa. Tentando evitar uma inundação, o rapaz tem a infeliz idéia de destruir a vassoura com um machado, e parte-a ao meio. Agora as duas metades vão buscar água, duplicando a quantidade trazida. No último momento, o mestre reaparece e resolve a situação, que, bem ao gosto de Goethe, serve como lição moral para o aprendiz).

Vejamos como a descrição da natureza da crise capitalista no “Manifesto Comunista” feita por Marx e Engels expõe as dimensões irônicas da contradição visceral do mundo do capital. Dizem eles:
“Há dezenas de anos, a história da indústria e do comércio não é senão a história da revolta das forças produtivas modernas contra as atuais relações de produção e de propriedade que condicionam a existência da burguesa e seu domínio. Basta mencionar as crises comerciais que, repetindo-se periodicamente, ameaçam cada vez mais a existência da sociedade burguesia”. 

E prosseguem: “Cada crise destrói regularmente não só uma grande massa de produtos já fabricados, mas também uma grande parte das próprias forças produtivas já desenvolvidas. Uma epidemia, que em qualquer outra época teria parecido um paradoxo, desaba sobre a sociedade - a epidemia da superprodução”. Ou ainda: “Subitamente, a sociedade vê-se, reconduzida a um estado de barbaria momentânea, dir-se-ia que a fome ou uma guerra de extermínio cortaram-lhe todos os meios de subsistência; a indústria e o comércio parecem aniquilados. E por quê? Porque a sociedade possui demasiada civilização, demasiados meios de subsistência, demasiada indústria, demasiado comércio”. 

Eis a suprema contradição: “As forças produtivas de quê dispõe não mais favorecem o desenvolvimento das relações de propriedade burguesa; pelo contrário, tornaram-se por demais poderosas para essas condições, que passam a entravá-las; e todas as vezes que as forças produtivas sociais se libertam desses entraves, precipitam na desordem a sociedade inteira e ameaçam a existência da propriedade burguesa”. E afirmam o caráter ontológico da crise do capitalismo: “O sistema burguês tornou-se demasiado estreito para conter as riquezas criadas em seu seio”. Portanto, eis o caráter trágico e irônico da crise do capitalismo: “Porque a sociedade possui demasiada civilização...”. Finalmente, Marx e Engels expõem a saída que o capital encontra para a sua ironia trágica: “De que maneira consegue a burguesia vencer essas crises? De um lado, pela destruição violenta de grande quantidade de forças produtivas; de outro lado, pela conquista de novos mercados e pela exploração mais intensa dos antigos. A que leva isso? Ao preparo de crises mais extensas e mais destruidoras e à diminuição dos meios de evitá-las”.

É claro que Marx e Engels não previram o poder do fetichismo da mercadoria no decorrer do século XX e a capacidade do sistema mundial do capital coordenar mecanismos de controle e meios capazes, não de evitar as crises, mas impedir que elas se tornem “mais extensas e mais destruidoras” (como aconteceu com a crise de 1929). Entretanto, o caráter irônico das crises do capitalismo tornou-se cada vez mais explicito. Está cada vez mais claro que o sistema mundial do capital padece de “excesso de civilização”, exprimindo a contradição irremediável que caracteriza o fenomeno do estranhamento – por um lado, o desenvolvimento das forças produtivas do trabalho social e, portanto, o desenvolvimento das capacidades humanas, e por outro lado, a desfiguiração e aviltamento da personalidade humana por conta do desenvolvimento ampliado e intenso da manipulação e fetichismo da mercadoria nas condições históricas da crise do capitalismo global. 

A ironia trágica presente em “Beleza Americana”, pode ser sintetizada na frase: “Viver de morte, morrer de vida” (Heráclito de Éfeso). Na verdade, no filme, Rick, “vive de morte”, pois para ele a beleza da vida se esconde por trás de acontecimentos tristes - um pássaro morto, um mendigo morrendo de frio, um saco plástico ao vento... Ao mesmo tempo, Lester, uma cópia de meia-idade de Ricky, “morre de vida”. Ao “morrer de vida”, Lester Burham é a representação antropomorfizada do próprio capitalismo tardio e suas candentes contradições internas.

Um traço candente do filme “Beleza Americana” é a presença do sentimento de necrofilia num dos personagens jovem – Rick Fitts. Necrofilia é a perversão sexual que leva certos indivíduos a saciar os seus instintos sexuais em cadáveres. Erich Fromm destacava que o capitalismo tardio tende a desenvolver estruturas subjetivas obscecadas pela morte. Na sociedade capitalista, imerso em formas sociais estranhadas, o homem tende a perder o espontâneo amor à vida que se transforma alternativamente em terrível amor à morte. A necrofilia tende a proliferar com a disseminação da agressividade em suas múltiplas formas. 

Os EUA, a sociedade plena do capital e de sua lógica fetichizada de sócio-reprodutibilidade, se caracteriza por ser uma sociedade da agressividade, com a posse da arma de fogo sendo algo comum entre os cidadãos. Até os personagens problemáticos tendem a absorver características do ser necrófilo. Por exemplo, o sentimento de necrofilia compartilhado por Rick e Lester se expressa através do interesse comum pelo filme "Re-Animator", de 1985, cujo titulo no Brasil foi "A Hora dos Mortos-Vivos", com direção de Stuart Gordon (a sinopse do filme é a seguinte: Herbert West é um cientista louco obssecado com a morte. Em suas pesquisas, ele descobre um elixir que é capaz de trazer a vida seres mortos ou até mesmo partes do corpo desmembrados. Quando seu professor Dr. Hill tenta roubar sua descoberta, uma sucessão de assassinatos tem inicio).

O filme “Beleza Americana” nos apresenta dimensões da Vida e da Morte. Lester renasce, para logo depois morrer. Ele renasce para a vida quando busca se reafirmar como sujeito de si próprio. Ele se recusa a ser tratado como se não existisse, ou seja, ser tratado como uma coisa. Procura re-afirmar a legitimidade do desejo, do sonho e da fantasia como direitos do sujeito humano.Esse “renascer” de Lester será apenas o inicio de sua morte, anunciada por ele mesmo no começo do filme. Esta é a tragédia de Lester Burham. 

Toda tragédia possui uma dimensão catártica. Lester ao descobrir a si mesmo, descobre o que havia esquecido. A luta contra o fetichismo é a luta contra o esquecimento, dizia Adorno – esquecimento do que nós fomos e do que somos e esquecimento do nosso poder-fazer. Ao agir como forma referente do passado, a Imagem como fotografia pode contribuir para o processo de reminiscência. A cena final do filme em que apresenta Lester contém elementos de catarse, isto é, de purificação e limpeza (catarse é o efeito salutar provocado pela conscientização de uma lembrança fortemente emocional e/ou traumatizante, até então reprimida).

Num primeiro momento, a re-afirmação da Vida de Lester se dá através de um objeto do desejo fetichizado. É importante salientar que o objeto-fetiche é intrinsecamente contraditório. O próprio capital como representação suprema do objeto-fetiche é, como observou Marx, a “contradição viva”. O objeto do desejo de Lester – a Imagem-Fantasia de Angela Hayes - era negação fetichizada da sua stupid little life. O objeto-Imagem do Desejo de Lester possuia a força dissolvente do sonho e da fantasia. Para ele, Angela era a representação onirica da ninfeta devassa. Era a personificação de dimensões antitéticas da Vida e da Morte. Na fantasia de Lester, Angela era quase um Anjo do Pecado, jovem, bela e suja. Era a contraditoriedade do fetiche. Por isso, ela o atraia tanto.




Num primeiro momento do filme “Beleza Americana”, Lester está submisso às injunções fetichizidas de sua stupid little life. Ele se submete à Carolyn e seu estilo de vida permeado de fetiches – isto é, valores-coisas que se impõem à sua vida conjugal. Carolyn é uma típica mulher de “classe média”, moralmente mediocre, conformada com os valores burgueses. Lester é o pólo passivo desta relação conjugal insatisfatória. Evita confrontá-la e se submete à superfluidade cotidiana. Entretanto, para renovar seu estilo de vida envelhecido, Lester teve de se perder numa adolescência tardia, despertada por Angela.

Num noite chuvosa, Angela deixa-se seduzir por Lester. Entretanto, ao realizar sua fantasia, Lester se frustra. Ao invés de uma ninfeta devassa, ele encontra uma jovem frágil, inexperiente e insegura. Naquele momento, Lester caiu em si, desfazendo a fantasia-fetiche que o conduzia. Após a catarse, da purificação que se seguiu ao seu sacrificio, e da dissolução da projeção imagética de Angela Hayes como uma ninfeta devassa, Lester expressa a perenidade de um re-encontro consigo mesmo, com aquilo que perdera há tempos.

Foi contemplando a fotografia da família que ele se reencontra com o passado esquecido. A atitude de Lester é um ato pleno de reminiscência, de desfetichização de si. Sua expressão é de alguém que descobre um valor esquecido. Nesta última cena de Lester Burham é perceptivel o contraste marcante entre a fotografia da familia como forma referente de um passado esquecido e o buquê de Belezas Americanas como Imagem vazia de sentido de vida e fetiche-mor da ordem burguesa.
O filme “Beleza Americana” contém elementos da crise do trabalho. Por trás das vidas danificadas de “Beleza Americana”, tanto a tragédia de Lester, como a tragédia de Carolyn, ou mesmo de Rick, está à auto-alienação do trabalho. Na verdade, ela é a base material do estranhamento e do fetichismo que perpassa o cotidiano de todos eles.

A década de 1990 foi à década da Reestruturação Produtiva no capitalismo tardio. A maiorias das empresas tiveram que promover processos de downsizing, enxugando postos de trabalho, adequando-se à concorrência global. A percepção sensível que Lester teve desta ofensiva do capital na produção e da natureza fascista da lógica capitalista é parte de sua catarse. De certo modo, a crise pessoal de Lester é reverberação da crise do capitalismo global. Existe uma homologia estrutural perversa entre a crise pessoal da singularidade do homem singular Lester Burham e a explicitação da crise do capitalismo global em sua dimensão estrutural.

O filme “Beleza Americana” nos apresenta, no bom estilo hollywoodiano, o drama do herói problemático e da sua luta heróica contra o mundo corporativo. Mas a atitude individual contra o mundo do capital é inglória. É o que acontece com Lester, que, como um Carlitos tardio, só consegue vociferar (e disfarçar o desprezo) contra os “babacas no poder”. Com sua atitude rebelde, Lester expõe a monotonia e a rotina do trabalho. Tal como sua vida conjugal, seu trabalho estranhado e sua auto-alienação no trabalho, o levaram a se masturbar no banheiro, imaginado “uma vida que não se pareça tanto com o inferno”. Para Lester, a masturbação é a via de escape às situações de estranhamento. É sintoma de uma profunda insatisfação cotidiana. Apesar de rebelde, é uma atitude meramente escapista – o desenlace irá ocorrer com sua demissão sumária.

Ao sair da empresa de publicidade, Lester irá se refugiar num emprego de serviços de fast-food, assumindo uma função com um mínimo de responsabilidade possivel. Ele se recusa a servir (e a colaborar) com o capital e a se deixar “capturar” pelos contrangimentos subjetivos postos pelas funções mais qualificadas e polivalentes, que exigem mais responsabilidade em troca de maior desempenho e produtividade. De certo modo, tal atitude de Lester é uma crítica à lógica toyotista vigente nas grandes empresas capitalistas. É quase uma fuga inglória do trabalho capitalista. É a saída possivel na perspectiva individual do herói problemático.

Foi a partir de 1973 com a grande recessão mundial, que ocorreu uma inflexão histórica no desenvolvimento do capitalismo mundial. Ocorre a crise capitalista que iria impulsionar mudanças significativas na dinâmica do sistema do capital. Constitui-se uma nova forma de acumulação capitaista, a acumulação flexivel. Ela muda o modo de ser da produçào e da socioreprodutibilidade do capitalismo. Altera a vida cotidiana de homens e mulheres. Por isso, o contraste geracional entre Lester e Rick é flagrante. Um pertence à geração do capitalismo em sua fase de ascenção histórica; o outro, do capitalismo em sua fase de crise estrutural. Suas perspectivas de vida e de trabalho são diversas. Para Lester, a concepção de emprego é totalmente diversa da concepção de Rick. Para o primeiro, educado na perspectiva da carreira profissional, o emprego é de longo prazo, possuindo um valor moral; para o segundo, o emprego é apenas um bico, sem garantias de carreira e significado de vida. Enfim, Rick não está disposto a perder a vida para ganhá-la. 

No filme “Beleza Americana”, todos estão imersos numa vida de aparências. O emprego precário de Rick é apenas um bico que encobre suas atividades de tráfico de drogas. Esta é sua verdadeira fonte de rendas. Rick finge ser “um cidadão com um emprego respeitável”. Na verdade, a simulação é uma forma de sobreviver no mundo do capital. No mundo do fetichismo da mercadoria, a vida social torna-se um jogo de espelhos. Faz-nos lembrar o “mirror maze” que acolhe Carlitos perseguido por um policial no filme “O Circo”, de Charles Chaplin. Fugindo da policia, Carlitos refugia-se numa das atrações de um parque de diversões: o labirinto de espelhos. A memóravel cena do “labirinto de espelhos” no filme de Chaplin é um pouco a representação da cotidianeidade de aparencias do mundo social da proletariedade. Na medida em que o fetichismo da mercadoria se dissmina pela vida social, ele constitui uma teia de simulações cotidianas que envolvem as individualidades de classe. Cada um de nós experimenta um pouco os transtornos de Carlitos na cena do “labirinto de espelhos”.

É interessante observar que o contraste geracional é perceptivel não apenas entre Lester e Rick, mas também entre Carolyn e sua filha, Jane. A geração de Jane, filha de familia de “classe média”, herdou de seus pais, um melhor padrão de vida. Entretanto, falta-lhe as perspectivas de vida e de trabalho que seus pais tinham. Na verdade, tanto Jane quanto Rick, cresceram sob a nova temporalidade histórica do capital, caracterizada pela sua crise estrutural. De certo modo, o filme “Beleza Americana” explicita o surgimento da nova camada social do proletariado – o precariado - constituido por jovens adultos altamente escolarizados, mas inseridos em relações de trabalho precárias e sem perspectivas de carreira profissional. Jane Burham e Rick Fitts são representações do precariado em “Beleza Americana”, a camada social do proletariado que representa no plano da estrutura de classes as candentes contradições da ordem irônica do capitalismo global. É uma ironia insana jovens tão escolarizados e cheios de vida estarem frustrados com suas carreiras profissionais e sem perspectivas de futuro. Eis a miséria existencial do precariado. 

No filme “Beleza Americana”, os personsgens possuem simetrias reflexivas. Podemos distinguir, por exemplo, simetrias auto-reflexivas entre os personagens Carolyn-Ângela (auto-reflexo estranhado) e Lester-Ricky (auto-reflexo positivo). Auto-reflexo estranhado no sentido de que Carolyn e Angela são expressões geracionais de personalidades-simulacros que aceitam de modo compassivo os valores-fetiches da ordem burguesa. Auto-reflexo positivo na medida em que Lester e Ricky representam personalidades rebeldes que se insurgem contra o statu quo familiar visando auto-afirmar-se no interior da ordem fetichista do capital.


Finalmente, podemos observar alguns detalhes no filme. Por exemplo, espaço urbano e sociabilidade. O típico bairro de subúrbio norte-americano, arquitetado de forma minuciosa, com ruas paralelas e árvores podadas uniformemente. É o bairro de “classe media”, constituida num período de ascensão histórica do capitalismo. Beleza America sugere uma homologia significativa entre espaço urbano e estilo de vida ou biografia pessoal. Outra coisa: a imagem da casa dos Burham é a própria Arquitetura do Sistema. Ela é pintada com as cores da bandeira americana. O que demonstra que Beleza Americana é uma critica mordaz do American way of life.

É importante observar que “Beleza Americana” é um filme que nos apresenta a estética do Sistema. Assim, "American Beauty" é um tipo de rosa, cultivada nos Estados Unidos, que não tem espinho nem perfume… É a própria metáfora do simulacro e da beleza sem conteúdo. Ao estar imersa num oceano de "American beauty", Angela Hayes aparece como a própria representação pessoal daquilo que Beleza Americana significa: uma beleza vazia e inócua. Ela vale pelo que parece ser e não pelo que é. Ela representa os valores fetichizados do mundo burguês. Carolyn cultiva as Belezas Americanas. Elas aparecem ao lado de fotografias da familia Burham.



Existem elementos claros da desordem da familia burguesa no filme. Por exemplo, O único casal aparentemente feliz da vizinhança é o formado pelos gays Jim e Jim. Eles almejam construir um novo padrão de familia, totalmente incapaz de servir como nexo sócio-reprodutivo e próprio de uma introversão (e particularismo) social dissiminado. A crise da familia decorre da falta de comunicação. É perceptivel a falta de comunicação que atinge a sociabilidade estranhada da familia Burham, clivando os vários momentos do seu cotidiano. É um sintoma crucial da crise da familia. Não existe comunicação entre os membros da familia Fitts. O que se observa são relações sociais instrumentais, permeados de linguagem dissimulativa. O pai possui uma atitude impositiva, dificultando a verdadeira comunicaçào. É quase impossivel a comunicaçào no sistema do capital.

O filme “Beleza Americana”, de Sam Mendes, possui um sentido pedagógico. Por exemplo, os personagens do auto-reflexo positivo (Lester e Rick) dão-nos uma lição de vida. Por exemplo, ao assistir com Jane o vídeo que produzira, Rick expõe sua filosofia de vida. Por um lado, como salientamos, temos a estetização do fragmento, uma atitude típica do pensamento pós-moderno. Talvez seja expressão de uma renúncia à transcendência do estranhamento e do fetichismo da mercadoria. É uma forma de introversão conformista e escapista. Por outro lado, é uma reação possivel à falta de uma vida plena de sentido na modernidade tardia do capital. 


Por outro lado, podemos também constatar uma lição de Lester: após ser assassinado Lester Burham repassa num segundo, verdadeiro “oceano de tempo”, momentos de sua vida. Rememora pequenos detalhes da sua infância, adolescência e da vida familiar com Jane e Carolyn. O que Lester salienta é a importância de recuperarmos momentos preciosos da vida, atentando para detalhes ocultos, únicos e fugazes. São neles que se esconde a beleza no mundo. Ele diz ser grato por todos esses “momentos de minha vida idiota”. O que é importante destacar é que, Lester, como Rick, busca através de sua “filosofia minimalista”, dar algum sentido à vida no sistema fetichizado do capital. Na verdade, tanto Lester quanto Rick são expressões do fenomeno radical do estranhamento que coloca para as individualidades de classes o problema candente da vida plena de sentido. É este carecimento radical que move na vida cotidiana, cada vez mais, homens e mulheres que vivem do trabalho.

Giovanni Alves é professor da UNESP - Campus de Marília, livre-docente em sociologia, pesquisador do CNPq, autor de vários livros e artigos sobre o tema trabalho, reestruturação produtiva e sociabilidade. É coordenador-geral da RET (Rede de Estudos do Trabalho) (www.estudosdotrabalho.org) e coordenador-geral do Projeto Tela Crítica/CineTrabalho (www.telacritica.org)

domingo, 18 de junho de 2017

A REVOLUÇÃO RUSSA E O RESGATE DE UMA PERSPECTIVA REVOLUCIONÁRIA




Por Ivo Tonet
Professor de filosofia da Universidade Federal de Alagoas,
Doutor em educação pela UNESP, Maceió - Alagoas

Introdução

A comemoração dos cem anos da revolução russa deveria ensejar, para a esquerda que se pretende revolucionária, um ótimo momento para refletir sobre a sua trajetória desde aquele momento, fazer uma autocrítica séria e tirar lições importante para a luta no momento atual.

Por que a partir da revolução russa? Porque ela constituiu um acontecimento de inigualável importância como tentativa de superar o capitalismo e construir um mundo onde não houvesse nenhum tipo de exploração nem de dominação de um ser humano por outro, enfim, um mundo onde todos pudessem ter uma vida digna. Além disso, por que essa revolução, que despertou a esperança de milhões de pessoas, pela qual milhares de pessoas deram a vida, em nome da qual imensas lutas foram travadas, fracassou? O que aconteceu, tanto em termos teóricos quanto práticos, para que ela não pudesse atingir os objetivos pretendidos? Erros, deformações, incapacidades, falta de condições essenciais? Outras circunstâncias?

Por que é tão importante essa abordagem crítica? Porque é necessário aprender com o passado, compreender as causas dos insucessos e orientar melhor as práticas futuras. Porque essa crítica é conditio sine qua non para avançar no processo revolucionário.

Não se trata de uma tarefa fácil. Tanto pela complexidade dessa problemática, como pelas paixões que ela desencadeia. Paixões estas, não apenas entre os seus adversários, mas também, e de modo especial, entre os seus defensores. Críticas quanto a erros, deficiências e deformações são até aceitas por estes últimos. Mas, críticas que ponham em questão o caráter socialista dessa revolução e suas consequências – e de outras (chinesa, cubana, vietnamita, etc) – são imediatamente tachadas de contrarrevolucionárias, de defensoras do capitalismo. Argumenta-se, muitas vezes, que questionar o caráter da revolução russa é desconhecer, desmerecer ou menosprezar os aspectos positivos desse extraordinário acontecimento.  Por isso mesmo, queremos deixar estabelecido, antecipadamente, que não desconhecemos, desmerecemos ou menosprezamos o extraordinário significado que ela teve para a humanidade; as enormes melhorias em termos de vida material, de saúde, de educação, de habitação, etc. para a população russa; a influência positiva que teve para a melhoria de vida até dos trabalhadores dos países capitalistas. Temos certeza, inclusive, que a luta do povo russo foi o elemento fundamental para a derrota do nazismo e, mais tarde, para o sucesso de muitas lutas de libertação colonial. Tudo isso, certamente, foi, também, conquistado a um custo muitíssimo alto para a maioria daquele povo.

Todavia, tudo isso não é argumento para dirimir o problema do caráter da revolução russa. A discussão a esse respeito situa-se em um nível que não põe em questão, de modo nenhum, esse reconhecimento.

Não nos ocuparemos, aqui, das críticas dos seus adversários. Estes, orientados pela perspectiva teórica e prática burguesa, tem todo interesse em demonstrar, a partir desses exemplos históricos e sem se importar com a verdade, a impossibilidade do socialismo. O que nos interessa são as abordagens daqueles que a defendem. Estes, pelo menos em termos de intenção, defendem a possibilidade e a necessidade do socialismo, independentemente de qual seja a sua concepção acerca dessa categoria. Nosso objetivo, porém, não é examinar os argumentos de cada grupo ou autor. Isso exigiria uma investigação muito ampla e prolongada. Buscaremos, aqui, com o risco conscientemente assumido de cometer erros, sinalizar as questões que nos parecem mais relevantes e que demarcam tanto as diversas posições quanto os rumos que sugerimos para essa investigação crítica necessária.

Temos consciência de que mesmo dentro desse universo, em sentido muito amplo, de esquerda, a tarefa não é nada fácil. De um lado, pelas paixões que esse tema desencadeia. Entre leninistas, trotskistas, stalinistas, anarquistas, socialistas democráticos e outros, as divergências são enormes e, muitas vezes, fundadas mais em preconceitos do que em argumentos científicos. De outro lado, e aí reside uma questão de capital importância, a ampla maioria das abordagens desse processo revolucionário já é tributária de uma concepção metodológica que é resultado desse mesmo processo. Uma concepção metodológica que abandonou a categoria do trabalho como fundamento ontológico do ser social e que, a partir disso, atribuiu à subjetividade o papel de regente tanto no processo de conhecimento quanto na ação prática. A isso nos referiremos mais adiante (a respeito da problemática metodológica ver, de nossa autoria: Educação e revolução e Método científico - uma abordagem ontológica).

Nesse amplo espectro da esquerda, independentemente do conceito de socialismo, a ampla maioria concorda que a revolução russa foi uma revolução socialista. Também concorda que a revolução, independente do que tenha realizado, fracassou. Essa apreciação também se refere a todas as outras revoluções: chinesa, cubana, vietnamita, norte-coreana, sandinista. No entanto, e de modo geral, duas questões dividem esse campo.  Uma referente ao momento em que a revolução começou a degenerar; outra, referente às causas da degeneração.

Quanto ao momento, uma grande maioria entende que a revolução, com todas as suas dificuldades e percalços, manteve seu caráter socialista enquanto teve a direção de Lenin. Sua degeneração teria começado com Stalin. Vale lembrar, todavia, que houve grupos, minoritários, que afirmaram a degeneração mesmo durante o tempo da direção de Lenin. Outros entendem que o caráter socialista teve seu fim ou com a morte de Stalin ou com os últimos governos – Yeltsin e Gorbachev – e ainda com a queda do muro de Berlim, embora haja outros que ainda sustentam o caráter atualmente socialista da China, de Cuba e da Coreia do Norte.

Quanto às causas da degeneração, de novo, a ampla maioria entende que foram concepções errôneas ou erros tópicos cometidos pelo partido bolchevique e/ou por dirigentes, tenham sido eles Lenin, Trotski, Stalin e outros. Erros, particularmente nos terrenos econômico e político. Mas, juntamente com erros, também circunstâncias históricas adversas, tais como: a guerra civil interna, as agressões das potências capitalistas e a imensamente difícil situação econômica e social em que a Rússia se encontrou ao final da primeira Guerra Mundial.

Pese a todas as divergências, uma questão unifica a ampla maioria das abordagens: a centralidade da subjetividade, seja ela sob a forma da regência da subjetividade sobre a realidade objetiva, do reformismo ou do politicismo. Como veremos, isso também vale quando se atribuem os desvios às circunstâncias objetivas (por centralidade da subjetividade entendemos a regência do sujeito sobre o objeto, no processo de conhecimento e, aqui, a prioridade da ação política sobre a realidade objetiva, no processo de intervenção sobre a realidade).

Antes de prosseguirmos, é imperioso tratar da questão da relação entre subjetividade e objetividade e também esclarecer o que entendemos por politicismo.

Uma das ideias mestras da concepção materialista de história é que a realidade objetiva é o momento predominante na relação entre ela e a subjetividade. Conforme a célebre afirmação que encontramos em A ideologia alemã (2009, 32): “Não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência”. Valha, porém, enfatizar que determinação não significa, aqui, nenhum entendimento da subjetividade com algo secundário e sem retroação efetiva sobre a realidade objetiva. A análise da categoria do trabalho mostra, com toda a clareza, como se dá essa relação entre subjetividade e objetividade. Temos, aí, claramente, uma relação entre o momento fundante (realidade objetiva) e o momento fundado (subjetividade). Ambos são momentos da realidade. Todavia, a realidade objetiva é o momento predominante, pois é ela que põe o campo de possibilidades dentro do qual a subjetividade pode agir. Para enfatizar mais essa relação, poderíamos citar a célebre afirmação de Marx acerca da história. Diz ele (2008, p. 207): “Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade (grifos meus), em circunstâncias escolhidas por eles próprios, mas nas circunstâncias imediatamente encontradas, dadas e transmitidas pelo passado”. Essa constatação será de suma importância quando abordarmos a questão do caráter da revolução russa.

O politicismo, por sua vez, é uma forma de expressão da regência da subjetividade sobre a realidade objetiva. Ele tem por essência a atribuição à dimensão política, cujo núcleo fundamental, na sociedade de classes, é o Estado, da tarefa de determinar os rumos essenciais do processo social. Sabemos, pelo menos desde Marx, que, na sociedade burguesa, é a lógica de autorreprodução do capital o momento determinante. Ressalvada a determinação recíproca entre todas as dimensões da realidade social – linguagem, socialidade, arte, Direito, ciência, educação, política, etc – é a reprodução do capital que determina os rumos essenciais da sociedade. O politicismo existe quando se atribui à dimensão política (Estado) a capacidade de controlar o movimento do capital. Nesse processo, o politicismo expressa, das formas mais variadas, a vontade de reformar, de humanizar, de melhorar essa forma de sociabilidade (reformismo) ou a afirmação de que o Estado, popular, operário) é o principal condutor do processo de transformação social em direção ao socialismo.

Não se confunda, porém, politicismo com atividade política. Esta é uma dimensão da atividade humana que tem a sua origem, a sua natureza e a sua função social específicas. Sem entrar no mérito da natureza da política, que discutiremos em outro momento, esta é uma dimensão cuja existência, importância e especificidade não podem ser negadas. Na sociedade de classes ela assume, necessariamente, a natureza de luta pelo poder político, quer seja a favor da manutenção da desigualdade social, quer seja a favor da superação radical da desigualdade. Todavia, como parte da subjetividade, a política tem que operar nos marcos – nunca rígidos – postos pela realidade objetiva. Para resumir: à política cabe a tarefa importantíssima de dirigir o processo social, mas no campo de possibilidades posto pela realidade objetiva. O politicismo é exatamente a intenção de ir para além dessas possibilidades e criar algo que a realidade objetiva não permite. Vale lembrar aquela afirmação de Marx (1971, p. 87): “Por outro lado, se a sociedade tal como é não contivesse, ocultas, as condições materiais de produção e de circulação para uma sociedade sem classes, todas as tentativas para fazê-la estourar seriam outras tantas quixotadas”.

Considerando que todas as abordagens da revolução russa tem como pano de fundo a concepção revolucionária marxiana, quer concordem ou não, no todo ou em parte, com ela, convém sumariar, mesmo que brevemente essa concepção. Até mesmo porque não há uma concordância unânime quanto aos elementos essenciais que a caracterizam.

1.     A teoria revolucionária marxiana

Como sabemos, Marx afirma que o ponto de partida de uma concepção materialista da história é a constatação – “empiricamente verificável” – da existência de “indivíduos reais e de suas ações e condições materiais de vida”. Constata, também, que o primeiro e fundamental ato que esses indivíduos têm que realizar para continuar a existir, é a transformação da natureza, isto é, o trabalho. É através do trabalho que o ser humano transforma a natureza e a si mesmo. O trabalho, portanto, é a categoria fundante do ser social. Como consequência, em qualquer modo de produção, sempre encontraremos uma determinada forma de trabalho como seu fundamento. Não poderia ser diferente no modo de produção comunista. Segundo Marx, este terá como seu fundamento o trabalho associado. E trabalho associado não é uma simples associação de indivíduos, uma cooperativa, economia solidária ou trabalho voluntário. Trabalho associado é uma categoria tão precisa quanto trabalho assalariado e implica o controle consciente, livre, coletivo e universal dos produtores sobre o processo de transformação da natureza, base do comunismo.

Sabemos, porém, que a realidade social não se esgota no trabalho. Há, nela, muitas outras dimensões, tais como linguagem, socialidade, educação, conhecimento, arte, religião, Direito, política, etc. Todas elas, porém, tem sua origem última na categoria do trabalho. Todas surgem ou com ou a partir do trabalho. O que significa dizer que todas tem uma dependência ontológica em relação ao trabalho. Mas, todas elas retroagem sobre o trabalho e entre si, dando, assim, origem à dinâmica da totalidade social.

Ao analisar a sociedade burguesa, Marx constata que as duas classes fundamentais dela são constituídas pela burguesia e pelo proletariado. Também constata que é ao proletariado que interessa eliminar a exploração à qual ele é submetido pela burguesia. O que significa que esta classe será o sujeito fundamental, embora não único, de uma transformação que supere integralmente a sociedade burguesa.

Mas, a superação da sociedade burguesa tem como mediação inescapável, uma revolução. Diferentemente, porém, das revoluções anteriores, que, segundo Marx, foram revoluções sociais com alma política, a revolução proletária terá quer ser uma revolução política com alma social (ver, sobre isso, de Marx:  Glosas críticas ao artigo O Rei da Prússia e a Reforma Social.  De um prussiano). Momento político e momento social são dois aspectos inextricavelmente unidos para dar forma à revolução proletária. Sem o momento político, isto é, sem a conquista do poder, não poderá entrar em cena o momento social, vale dizer, as transformações econômicas que caracterizam o trabalho associado. Mas, é de capital importância que fique claro: essas transformações econômicas, que constituem a essência da revolução tem um fundamento – o trabalho associado – e implicam uma mudança radical na natureza da produção: a eliminação do valor de troca e sua substituição pelo valor de uso, com todas as consequências aí implicadas (eliminação da mais-valia, do capital, do dinheiro, das coisas como mercadoria, etc.) Todavia, esta mudança radical pressupõe três condições: um alto grau de desenvolvimento da capacidade de produzir riquezas, em abundância, que possibilite satisfazer as necessidades básicas de todos; um sujeito capaz de realizar essas transformações e o esgotamento das potencialidades do atual sistema, que o transformem de força positiva em força negativa e destrutiva para a humanidade.

Estes são, em brevíssimo resumo, os elementos essenciais da proposta marxiana.

2.  A II Internacional, a deformação do marxismo e a emergência, em larga escala, do reformismo e do politicismo

A trajetória da teoria marxiana, como todos sabem, foi extremamente complexa. Isto porque, mais do que qualquer outra, é uma teoria que assume, clara e abertamente, uma posição de classe. Trata-se de uma teoria que responde aos interesses mais essenciais do proletariado. Compreender o mundo até a sua mais profunda raiz e também transformá-lo radicalmente, eis o objetivo último do proletariado. E, para isso, é preciso que essa classe assuma a tarefa de liderar uma revolução, isto é, uma transformação que mude a totalidade da sociedade a partir da sua matriz, que é o trabalho.

Circunstâncias históricas concretas impediram que a transformação prospectada por essa teoria se efetivasse.

A derrota das tentativas revolucionárias de 1848 e da Comuna de Paris abriu, para o capital, amplas possibilidades de desenvolvimento, especialmente na Alemanha, levando esse país a uma rápida industrialização e, com isso, a um grande crescimento da classe operária. O desenvolvimento econômico permitiu uma significativa melhoria de vida para uma grande  parte dos trabalhadores. Além disso, a legalização do Partido Socialdemocrata (socialista), composto de milhões de trabalhadores, permitiu que estes participassem abertamente do processo político e elegessem representantes para o parlamento. Esta situação contribuiu poderosamente para gerar, não só na mente de milhões de trabalhadores, mas também de muitos teóricos, inclusive marxistas, a convicção de que o socialismo poderia ser atingido sem uma ruptura radical com o Estado e o capital. Mas, para isso, era preciso fazer uma crítica do pensamento revolucionário de Marx e Engels, “adaptando-o” às novas circunstâncias. Começam, então, as elaborações teóricas - na economia, na filosofia, na história, na política, etc. – que configurarão o reformismo e o politicismo: o abandono da centralidade (ontológica) do trabalho em favor da centralidade (ontológica) da política; a afirmação de que o caminho para o socialismo poderia ser trilhado pela via das reformas e não da revolução; a atribuição ao Estado da tarefa de dirigir esse processo de construção de uma sociedade socialista.

É o primeiro momento em que se abandona a centralidade – teórica e prática – do trabalho em favor da centralidade – também teórica e prática – da política. É certamente, muito importante compreender como se deu esse processo, tanto teórica como praticamente. No entanto, isso não será objeto do presente texto.

3.  A revolução russa

Maravilhosa, grandiosa, gloriosa. Esses e outros adjetivos acompanham, frequentemente, as abordagens da revolução russa.   Alertados pelas advertências e pelos pressupostos referidos na Introdução e baseados na teoria revolucionária marxiana, procuraremos entender o processo que teve início em 8 de março de 1917 e teve seu fim em 1991. Um processo, evidentemente, complexíssimo, cuja investigação detalhada ainda está em curso e que, nem remotamente é nossa intenção abordar em seu conjunto (literatura sobre a revolução russa é muitíssimo extensa. A abertura dos arquivos da antiga União Soviética certamente trará á luz muitos novos elementos para análise. De todo modo, julgamos imprescindível a leitura e alguns livros: História da revolução russa, de L. Trotski; A crise do movimento comunista, de F. Claudín; As lutas de classes na União Soviética, de C. Bettelheim;  Os bolcheviques e o controle operário. De M. Brinton; A revolução russa, de M. Tragtenberg; A revolução russa – de Lenin a Stalin, de E. Carr. Indispensáveis, também, as obras de Lenin.).

Todavia, em meio a essa complexidade é possível destacar alguns aspectos essenciais que, a nosso ver, configuram o fio condutor desse processo.

Os fatos imediatos são bastante conhecidos. Uma profunda crise do capitalismo, que culminou na primeira guerra mundial, que engolfou a maioria dos países do mundo e cuja essência era a disputa do mundo entre as grandes potências. Uma Rússia econômica, social e politicamente muito atrasada. Embora com pequenas ilhas de avanço, este atraso também atingia, no campo cultural, a maioria da população, amplamente analfabeta e submetida a condições brutais de exploração e dominação. Além disso, a maioria da população era composta de habitantes do campo – servos e camponeses – e de um proletariado muito diminuto e sem tradição de luta, dada a recentíssima e limitada industrialização. Para agravar a situação, um sistema político dominado por uma nobreza feudal e em profunda decadência.

Nesse caldo de enormes contradições e lutas no campo e na cidade é que adentrou a teoria marxiana, levada por diversos grupos revolucionários, por volta de 1870. É, também, nesse momento que se organizaram o Partido Socialdemocrata Russo que, apesar do nome, era um partido revolucionário e não reformista e outros partidos de esquerda.

O processo revolucionário teve seu primeiro momento de eclosão em 1905. Derrotado, ele voltou a se reerguer, com toda a força, em 1917. Vale notar que, de início, em 1917, não foi um movimento organizado e liderado por nenhum partido. O acirramento das contradições levou as massas a explosões que somente após algum tempo foram lideradas por vários partidos.  

São conhecidos também os eventos de fevereiro a outubro de 1917, quando os bolcheviques, finalmente, assumiram o poder. Ao assumirem o poder, viram-se na necessidade de fazer a paz com a Alemanha para evitar uma derrota total. Porém, após o término da guerra encontraram um país devastado econômica e socialmente. A situação era simplesmente catastrófica. Produção econômica arruinada nas cidades e no campo, desemprego, desabastecimento das cidades, fome, miséria.  Nesse momento, e até 1921, tiveram que enfrentar a oposição armada da burguesia auxiliada pelas potências imperialistas.

Diante disso viram-se na contingência de tomar medidas drásticas, mas muito problemáticas. Lembremos apenas algumas mais importantes: Já em fins de 1917, foi tomado um conjunto de medidas (criação de órgãos estatais, estabelecimento de determinadas relações entre Estado, sindicatos e comissões de fábrica, regulamentação do trabalho nas fábricas) que retirava das mãos das massas revolucionárias e especialmente dos sovietes e das comissões de fábrica o poder sobre a organização da produção tanto em nível geral quanto no interior das fábricas.

O chamado Comunismo de Guerra, que implicava o confisco da produção do campo, a proibição de qualquer atividade econômica privada, o racionamento para privilegiar o Exército Vermelho que lutava contra os brancos e os invasores, a militarização do trabalho e dos sindicatos com a proibição de greves, a volta da hierarquização nas fábricas, com isso, a perda de poder dos comitês de fábrica, a volta da hierarquização também no exército, intensa centralização do poder político nas mãos do partido bolchevique e, depois, do Comitê Central do partido.

Vale lembrar que essas medidas tiveram forte oposição de vários setores sociais que apoiavam, de modo geral, a revolução. Em especial, a chamada Oposição Operária e os diversos grupos anarquistas. No interior do próprio Partido Bolchevique as medidas que caracterizaram o “Comunismo de Guerra” também não eram, de modo nenhum, unanimidade.

Frente aos ataques e sabotagens de toda ordem da burguesia, à agressão das potências capitalistas e mesmo frente ao descontentamento e à oposição interna, foi organizado um enorme aparelho repressivo centralizado pela Tcheka à qual foram atribuídos poderes cada vez mais amplos e discricionários.

Com o fracasso do Comunismo de Guerra, Lenin, à frente do governo, implantou a NEP – Nova Política Econômica. Em linhas gerais, ela permitia a livre iniciativa na criação de pequenas e médias empresas de produção e comércio, a volta de muitos especialistas do antigo regime para as tarefas burocráticas, o retorno e uma certa liberdade do mercado,  a exploração de pequenas propriedades no campo, a entrada de capitais estrangeiros, o abandono da requisição forçada de produtos agrícolas e do racionamento, o fim das trocas diretas, a liberdade salarial e o retorno da moeda como meio de pagamento. Todavia, o Estado centralizado mantinha o controle geral da economia e de todo o processo social. Também continuavam a existir a hierarquização nas fábricas, a indicação dos dirigentes das fábricas pelo Estado e não eleitos pelos trabalhadores, a rigidez e a intensificação do trabalho, a submissão dos sindicatos ao Estado, a organização do exército nos moldes tradicionais e o aparato repressivo cada vez mais forte e atuante.

O impulso às atividades econômicas, providenciado pela NEP, permitiu um crescimento da produção e, com isso, uma melhoria geral da vida da população. Todavia, o atraso no desenvolvimento das forças produtivas ainda era muito grande. Daí porque, a partir do intenso debate econômico no interior do partido, surgiram os Planos Quinquenais como forma de impulsionar, de maneira muito rápida, o desenvolvimento econômico. A construção do socialismo implicaria, segundo alguns teóricos, uma “acumulação socialista primitiva”.

Além dessas questões, outros dois elementos importantes integravam a situação russa pós-revolucionária. Primeiro: a expectativa da revolução em outros países, especialmente na Alemanha. Sabe-se que os dirigentes bolcheviques tinham claro que não seria possível caminhar em direção ao socialismo em um país tão atrasado como a Rússia. Mas, havia fortes indícios de que podia acontecer a revolução também na Alemanha, o que, provavelmente, arrastaria a França e outros países capitalistas importantes. Isto levaria à efetivação de uma das condições fundamentais para a continuidade da revolução: a sua universalização. Segunda: a convicção de que o capitalismo se encontrava em uma fase agonizante. Sua fase imperialista juntamente com a sua monopolização estariam a indicar que ele estaria atingindo seus limites últimos e abrindo as portas para a possibilidade de construção do socialismo. Esta convicção não era destituída de bons argumentos, como demonstram as análises de Lenin. Apesar disso, era equivocada, pois o espaço existente para a reprodução do capital era ainda bastante amplo.

O conjunto dessas circunstâncias objetivas configurava um claro beco-sem-saída: um campo onde a possibilidade de entrar em cena, ainda que de modo processual, a alma do socialismo, isto é, o trabalho associado (controle livre, consciente, coletivo e universal da produção, retrocesso do valor de troca e avanço do valor de uso, com tudo o que isso implica), estava totalmente ausente. Tinha sido feito o primeiro movimento da revolução – a reabsorção do poder político pelo conjunto dos revolucionários. Mas, como afirmava Marx, esta era apenas uma mediação para entrar em cena a alma do socialismo, o trabalho associado. Ausente essa possibilidade, todo o processo ficava inteiramente bloqueado.

Importante observar que, ainda que tenham sido cometidos erros, não se tratou nem de erros, nem de problemas relativos à direção, nem de falta de pessoas capacitadas, teórica e politicamente, nem de esforço e dedicação. Tratava-se de uma situação objetiva que não poderia ser superada por nenhuma intervenção da subjetividade, por mais forte, dedicada e lúcida que fosse. O próprio Lenin, com toda a sua genialidade, teve que curvar-se diante dessa realidade objetiva e tomar medidas concretas que iam em direção oposta ao caminho para o socialismo, como vimos com as medidas assumidas ainda em fins de 1917, depois o abandono do Comunismo de Guerra e a instauração da Nova Política Econômica.

Por isso, a meu ver, é equivocado afirmar que há uma ruptura essencial entre o período leninista e o período stalinista. Ainda que as diferenças sejam imensas, as linhas de força do campo dentro do qual tanto Lenin quanto Stalin se moveram eram essencialmente as mesmas (a questão da continuidade ou não entre o período de Lenin e o de Stalin é espinhosa e muito controversa. Duas posições extremas: total continuidade ou total ruptura. Pensamos que há um tertium: uma continuidade na descontinuidade. A descontinuidade se refere à forma com que cada um deles enfrentou a situação e, no caso de Lenin, se estivesse no lugar de Stalin, certamente agiria diante da realidade concreta. A continuidade se refere ao fato de que ambos tiveram que agir dentro de um campo limitado de possibilidades posto pela realidade objetiva. Dentro desse campo, dadas as circunstâncias concretas, não se encontrava, como alternativa, a possibilidade de orientar o processo em direção ao comunismo. Isso é claramente evidenciado pelo fato de que, desde fins de 1917 foram tomadas medidas, apoiadas por ambos, que contribuíram para desviar a revolução do caminho do comunismo. É inegável que há diferenças enormes entre esses dois períodos. Como líder e como teórico, Lenin era incomparavelmente superior a Stalin. Sempre preocupado em analisar a realidade concreta. Stalin era teoricamente muitíssimo limitado. Seu espaço preferido era o jogo do poder. Para ele, a teoria não era um guia para a ação, mas um meio de corroborar as decisões tomadas pelo poder.).

O stalinismo implicou, certamente, uma inflexão muito profunda nos caminhos tomados pela revolução. Sua forma específica deve muito às qualidades de Stalin. Mas, os lineamentos essenciais do processo não seriam alterados qualquer que fosse o dirigente.

Pode-se, e com bastante razão, imaginar que, sob a direção de Lenin, o processo revolucionário não teria tomado o caminho do stalinismo, pois as qualidades dos indivíduos tem um peso diferenciado na história. Mas, dada a ausência de condições objetivas para caminhar no sentido do socialismo, os parâmetros essenciais não sofreriam alteração significativa.

O caminho que levaria à burocratização, à formação de uma casta de funcionários públicos privilegiados, à criação de um Estado típico (um conjunto de instituições políticas, jurídicas, militares, repressivas, ideológicas separado do conjunto dos revolucionários e com plenos poderes sobre a vida de todos os indivíduos, especialmente os que não se encontravam na direção do Estado), autocrático e altamente repressivo, ao afastamento das massas de uma participação ativa no processo, à transformação dos sindicatos em meras correias de transmissão do Estado, à continuidade da exploração dos trabalhadores, começou a ser tracejado bem antes da morte de Lenin. Sabemos que ele mesmo reconheceu a crescente burocratização sem, contudo, atinar com a raiz do problema e sem poder encontrar qualquer possibilidade de superá-la.

 Nessa situação tornava-se impossível avançar no processo de fenecimento do Estado, pois isto dependia da eliminação radical da propriedade privada, das classes sociais e da exploração dos trabalhadores. Ora, tudo isso dependia de uma radical mudança na forma do trabalho, algo inteiramente impossível nas circunstâncias dadas. O máximo possível, nessas circunstâncias, era eliminar, através de um controle do Estado, a propriedade privada e os aspectos concorrenciais do capitalismo. No entanto, não seria possível eliminar o próprio capital, pois este se originava da mais-valia produzida pelos trabalhadores.  Esse processo, como se pode ver em todas as tentativas de revolução socialistas, podia durar algum tempo, mas, como o próprio Marx já advertira em  A ideologia alemã, não podia, de modo nenhum, se perpetuar e muito menos representar a transição para o comunismo.

Desse modo, a revolução se deteve no primeiro momento, o momento político – a destruição do Estado burguês e a reabsorção do poder político pelos revolucionários – mas, não pode avançar. Por sua vez, o não avanço em direção à alma social (trabalho associado) implicou também a degeneração do momento político: o afastamento das massas da participação ativa no processo (a democracia proletária). Não foi, portanto, a “falta de socialização do poder político”, como muitos marxistas afirmam, que impediu a continuidade de “socialização do poder econômico”. Pelo contrário, foi a impossibilidade de implementar, efetivamente, nas circunstâncias dadas, a efetiva socialização da economia – retrocesso do valor de troca e avanço do valor de uso – que impediu a continuidade e o aprofundamento da democracia proletária.

Pode-se argumentar, e muito se argumentou, que foi feito “o que era possível” diante da situação real. Isto, sem dúvida, é verdade. Ou se tomavam essas medidas ou outras similares ou se entregava o poder de volta ao Czar ou à burguesia. E essas medidas ou outras similares teriam que ser tomadas qualquer que fosse a direção: Lenin, Trotski, Stalin, a Oposição Operária ou os anarquistas. A forma mudaria, mas não o conteúdo essencial. Contudo, o que não se poderia fazer, mas se fez, é chamar isso de socialismo, isto é, um processo de transição do capitalismo ao comunismo. Vale observar que isso não significa nem justificar nem condenar o que foi feito. Trata-se apenas de compreender o processo concreto e dele tirar as lições para o futuro.

Teórica e praticamente, as consequências dessa situação concreta foram imensas. Teoricamente: a teoria marxiana teve que ser, e foi, reformulada, tanto pelos que apoiavam esse processo quanto por muitos dos seus críticos, de modo a dar apoio a esse “novo caminho” ou para fazer a crítica dele. Categorias como trabalho, valor (teoria do valor), socialismo, revolução, Estado, classe e lutas de classes, democracia, cidadania e outras foram profundamente reformuladas. Criou-se, assim, uma nova ortodoxia, chamada de marxismo-leninismo e, mais tarde de marxismo-leninismo-stalinismo, submetida ao controle do Estado e, em última instância, ao Partido Comunista e, mais ainda, ao Secretário Geral. Neste caso, a teoria deixou de ser uma tradução teórica do processo real e, assim, um guia para a ação, para transformar-se em um instrumento para corroborar as decisões tomadas na instância política. Com isso a formação dos militantes se transformou em mera preparação de ativistas. Dogmatismo e sectarismo eram as marcas dessa formação. Não mais era permitido pensar, questionar, estudar com seriedade, pois a teoria era elaborada nos mais altos escalões dos partidos. A dialética se transformou na “arte de cair sempre de pé”. Aos militantes cabia apenas aplicar aquilo que ou já estava codificado na “Bíblia marxista” (Marx, Engels, Lenin e Stalin) ou era decidido nas instâncias política superiores. A deformação que isso produziu na militância foi simplesmente devastadora.

Já fizemos referência, anteriormente, à deformação, teórica e prática, do ideário marxiano feita pela II Internacional. Com entonações diferentes, a perspectiva reformista da socialdemocracia alemã foi retomada após a revolução russa, derivando nas mais variadas tendências do “socialismo democrático”. E até mesmo de muitas posições que apenas tinham o nome de socialismo, mas eram somente formas mascaradas de reprodução dos interesses burgueses.

Praticamente: toda a luta entre capital e trabalho, que se desenrolou desde a revolução russa até o momento presente foi e continua sendo profundamente tributária do caminho aberto por aquela revolução. Como demonstra F. Claudín no livro A crise do movimento comunista, toda a estratégia foi traçada no sentido de proteger o que era proclamado como “a pátria do socialismo”. Por um lado, todos os partidos comunistas, em todos os países, seguiram, embora com suas especificidades, o figurino do PC da URSS, tanto teórica quanto praticamente. Do mesmo modo, a relação entre partidos e sindicatos e entre Estados (ditos socialistas), partidos e sindicatos também era organizada nos mesmos moldes da União Soviética. Por outro lado, esse processo levou ao abandono da centralidade do trabalho em benefício da centralidade da política, com imensas e perversas consequências para as lutas dos trabalhadores contra o capital (a esse respeito, ver: Descaminhos da esquerda - da centralidade do trabalho à centralidade da política.).

De algum modo, todas as outras tentativas revolucionárias socialistas – chinesa, cubana, vietnamita, norte-coreana – seguiram caminhos semelhantes ao da revolução russa, enfrentando, também, circunstâncias semelhantes.

O resultado mais geral de todo esse processo foi o fracasso de todas as tentativas de superar o sistema capitalista e de caminhar em direção ao comunismo. Além disso, e como apontamos no texto O grande ausente: a perda, pelos trabalhadores, da perspectiva revolucionária, teórica e praticamente e a emergência, em seu lugar, do reformismo e do politicismo.

Certamente, houve autores que assumiram uma postura crítica face a essa dogmatização. Com diferentes entonações, podemos citar, entre eles: A. Gramsci, Rosa Luxemburgo, L. Trotski, G. Lukács, C. Bettelheim, M. Brinton, F. Claudín. Referência especial merece I. Mészáros, o primeiro a questionar em profundidade o caráter socialista da revolução russa. Independente de concordância total, sua obra Para além do capital é um marco fundamental nesse questionamento.

4.  Lições para o nosso tempo

Que lições tirar de tudo isso? Muitas, certamente. Porém, dada a brevidade do texto, apenas apontaremos o que nos parece mais importante.

Em primeiro lugar, do ponto de vista teórico, a necessidade de resgatar a perspectiva revolucionária. Isto implica retomar o caminho proposto por Marx: começar pela categoria trabalho como fundante do ser social e, a partir dela, compreender o surgimento de todas as outras categorias e suas relações. Compreender, com isso, o processo histórico e social como uma totalidade, com as devidas mediações, contradições e particularidades. Nunca abandonar o trabalho como fio condutor de todo o processo histórico.

Importante assinalar que não basta falar em classes e luta de classes. É preciso reconstruir toda a concepção de mundo e de método científico cujos fundamentos foram lançados por Marx, de modo a fundamentar solidamente o caráter radicalmente histórico e social do mundo humano e a nossa capacidade de compreendê-lo e também de transformá-lo radicalmente.

Este ponto de partida permitirá fundamentar a possibilidade e a necessidade da revolução, da superação radical do capitalismo e da construção de uma sociedade comunista. Considerando que os acontecimentos históricos deformaram profundamente todo o ideário marxiano, especialmente os conceitos de comunismo e de revolução, e enfraqueceram enormemente a crença na sua possibilidade, essa tarefa é da máxima importância.

Do mesmo modo, esse ponto de partida e a teoria, fundamentada nele, desenvolvida por Marx (e outros autores) permitirão fazer a crítica radical do sistema do capital e compreender a crise atual, alicerçando a ideia de que o aperfeiçoamento e a humanização do capital são uma impossibilidade absoluta e que a única saída positiva para a humanidade está na organização de outra forma de sociabilidade fundada no trabalho associado.

Em segundo lugar, e a partir daqueles fundamentos, resgatar a natureza da revolução proletária, deixando claro que ela tem como essência uma mudança radical na forma do trabalho, isto é, a superação do trabalho assalariado e a instauração do trabalho associado. Não se trata, portanto, de estatização dos meios de produção, de planejamento estatal da economia, de supressão jurídico-política da propriedade privada, mas de controle, livre, consciente, coletivo e universal dos produtores sobre o processo de produção. Resgatar, com isso, a verdadeira natureza do objetivo final da luta dos trabalhadores: a construção de uma sociedade comunista, fundada no trabalho associado. Isso também permitirá elaborar uma sólida crítica a todo tipo de reformismo e politicismo (ver, a esse respeito, o artigo: Trabalho associado e revolução proletária.)

Em terceiro lugar: compreender que o caminho da transição do capitalismo ao comunismo não passa pela tomada do Estado, mas pela destruição do Estado burguês e pela reabsorção do poder político pelo conjunto dos revolucionários como mediação para o combate político à burguesia e para a entrada em cena do trabalho associado (essenciais, para isso, as obras de Marx: Glosas críticas e A guerra civil na França.)

Para isso, é da máxima importância rediscutir a problemática do Estado, enfatizando sua natureza, sua função essencial e as questões relativas à questão do poder político no processo de transição do capitalismo ao comunismo. Como já tratamos dessas questões em outro texto – Trabalho associado e extinção do Estado – remetemos a ele (também é de capital importância ler, a esse respeito, o livro de I. Mészáros: Para além do capital e o importante trabalho de Rafael A. da Silva: Dilemas da transição – um estudo crítico da obre de Lenin de 1917 a 1923.

Também é de fundamental importância rediscutir a problemática referente ao partido, sua natureza, sua função como instrumento da classe operária para a orientação das suas lutas, e a relação entre ele, os sindicatos e as massas.

Importantíssima lição para o nosso tempo também é aquela referente à formação de militantes. Na mesma medida em que a teoria foi sendo transformada em dogma, em receita e em responsabilidade exclusiva das direções partidárias, a formação dos militantes foi se tornando cada vez mais estreita, limitada e “catecísmica”. Não era mais preciso estudar, questionar, investigar. Tratava-se apenas de obedecer e aplicar as “teorias” produzidas pelas direções. Daí para o dogmatismo e o sectarismo é um passo muito pequeno. Tudo isso tem que ser repensado em profundidade (a esse respeito, sugerimos a leitura do texto de S. Lessa: Crítica do pratiscismo “revolucionário”. ).

Em quarto lugar, do ponto de vista prático: organização dos trabalhadores independente do Estado e do capital. Uma tarefa nada fácil, dadas as estreitas relações entre sindicatos, Estado e capital que foram sendo construídas ao longo do processo histórico. Isto implica articular as lutas específicas com o objetivo geral de superação radical do capitalismo. Implica, também, que o eixo das lutas esteja fora do Estado e do parlamento e que elas adquiram um tom cada vez mais anticapitalista e anti-estatal. 

Alega-se, muitas vezes, que o socialismo não está na ordem do dia e que, no momento, a correlação de forças é desfavorável aos trabalhadores.  É a mais pura verdade. Esquece-se, porém, de examinar o processo que levou a essa situação desfavorável e, inclusive, a enorme responsabilidade que a estratégia que orientou predominantemente a luta entre capital e trabalho desde a revolução russa teve nessa configuração. Esquece-se, também, que correlação de forças se constrói e que não é a soma de lutas parciais que resultará em acúmulo de forças para a revolução. Se não houver a articulação entre as lutas parciais e o objetivo mais geral, nunca haverá acumulação de forças (consciência de classe mais organização independente) que possibilitará dar um salto de qualidade em direção à revolução. Jamais haverá acumulação de forças para a revolução se as lutas priorizarem o campo parlamentar/estatal. Faz-se necessário articular as lutas intra e extraparlamentares e, mais ainda, imprimir a todas elas um caráter cada vez mais anticapitalista e anti-estatal.


A modo de conclusão

Apreciar os imensos e positivos impactos que a revolução russa – e outras tentativas revolucionárias (chinesa, cubana, vietnamita, etc) teve para a humanidade não pode nos impedir de questionar em profundidade seu caráter. E afirmar que ela – e nenhuma das outras – teve um caráter socialista (no sentido de transição para o comunismo), em nada diminui os enormes benefícios que ela trouxe à humanidade.

Nossa intenção, nesse texto, foi argumentar no sentido de que o caráter não socialista da revolução russa não se deveu a nenhum problema da subjetividade (erros, medidas eq          uivocadas, problemas de direção, etc.), mas ao fato de que, no campo da realidade objetiva, não estava presente a possibilidade de trilhar o caminho da transição do capitalismo ao comunismo. E, a partir dessa constatação, repensar as tarefas e os caminhos que nos cabem atualmente no sentido de resgatar, teórica e praticamente, a perspectiva revolucionária.

Referências bibliográficas

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Palavras-chave: revolução russa, socialismo, crise atual, perspectiva revolucionária,
Key words: russian revolution, socialism, present crisis, revolutionary perspective


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